Cotidianos IX – Uma História de Família


Numa tarde quente na Sala de Interrogatório da Delegacia de Polícia de uma cidade à margem da BR-364, Região Norte do Brasil, um Delegado tentando ser paciente com um detido renitente, perguntava pela enésima vez:

-Senhor Bartolomeu, para registro, o senhor precisa dizer o seu nome completo, e após o quê, o senhor precisa me contar, em detalhes, essa história do senhor ameaçar a vida daqueles homens, lá porta da Sede da sua Fazenda.

O detido permanecia mudo como uma porta. Por fim, o advogado que o acompanhava, depois de pedir ao Delegado se ele concedia um minuto a sós com o seu constituinte, conseguiu convencer o teimoso detido a colaborar com o interrogatório do inquérito instaurado semanas antes.

-Intonce... Apôis, “Seu” Delegado! Vô cuntá tudo, tim tim pur tim tim... Mas i’eu digo pru sinhô, qui num amiacêi ninguém naum, num sabe?

-Como não, Senhor Bartolomeu? Se até o padre, que estava lá no terreiro da Fazenda, negociando a desocupação das terras, testemunhou as suas ameaças, Senhor Bartolomeu?

-Mas “Seu” Delegado, acuma qui’eu amiacêi, si’eu só cuntêi a história da mia famía, Dotô Delegado?

-Está bem, Senhor Bartolomeu! Comecemos então, do início... Comece pelo seu nome... Completo, Senhor Bartolomeu!

O fazendeiro, embora homem de muitas posses... Terras, gado, propriedades na cidade, filhos graduados em Agronomia, Veterinária... Até médicas, as lindas filhas gêmeas, caçulas da família, motivo de orgulho e empáfia nos camarotes das feiras agropecuárias, o Bartolomeu tinha. No entanto, era mais xucro que “boi alongado”... Mal sabia escrever o nome!

Bartolomeu acomodou melhor o traseiro na cadeira dura da Delegacia, olhou para o Advogado, que sinalizou com a cabeça encorajando-o, relanceou um olhar enviesado para o Delegado, e começou a contar a sua versão do acontecido na Fazenda e a história da sua família:

-Intonce apôis, “Seu” Dotô Delegado! A mia graça é Inácio Bartolomeu Gracioso Neto, num sabe? “Gracioso”, da finada minha mãe; e Bartolomeu do finado meu vô, que passo pru meu falecido pai, que passo pra’eu, num sabe? E qui’eu passei pru meu fíi mais véio, e qui’vái passá pru meu Neto, qui’tá no bucho da mãe... Qui’vái parí, lá pru’s Natal ô Anu Nôvu!

À lembrança do Neto, o Bartolomeu descontraiu e sorriu amistoso, desfazendo a carranca sisuda, e continuou o depoimento:

Disse que um dia, como de costume, pela madrugada, caminhou em direção ao curral para tomar uma caneca do primeiro leite da ordenha do dia; no caminho, olhou para a porteira da Fazenda, e estranhou um amontoado de gente ao longo do arame que demarcava suas terras. Aquela gente estranha, gritava e agitava para o alto, enxadas, foices, facões, bandeiras vermelhas, pedaços de pau, num “piseiro” que dava nos nervos... Era muito barulho... Não dava pra entender quase nada do que gritavam... Mas que aquele fuxico todo, estava deixando o gado agitado no pasto, e as vacas nervosas... ‘Tava sim! Era bem capaz até que cortassem o leite, diminuindo a produção... Olha só, o prejuízo, “Seu” Delegado! Argumentou.

De repente, “Seu” Delegado! – explicou – Aquele rebanho de gente, avançou no rumo da porteira... – Porteira boa! Feita de aroeira, fincada em mourão de angico! – detalhou – meteram os peitos na coitada e... Bruuum! Derrubaram a porteira e avançaram no rumo da Sede da Fazenda como se fossem uma boiada em estouro... Na hora, “Seu” Delegado, deu até medo! Mas aí, quando chegaram em frente à Sede, pararam e ficaram esperando, aos gritos, um outro grupo que passou por cima da porteira derrubada, montado num jipe vermelho. E ficou aquela zoeira danada dos gritos dos invasores:

“TERRA DE LATIFÚNDIO NÃO TEM DONO! TERRA DE LATIFÚNDIO É PRA QUEM NÃO TEM!”

Veja se pode, “Seu” Delegado? E aí, o jipe parou na frente da Sede levantando uma nuvem de pó que entrou janelas adentro sujando cortinas, móveis, cristaleiras e o piso sempre brilhando, orgulho da Josefina, companheira de toda a vida. A raiva cresceu dentro dele. – Bartolomeu rosnou com raiva.

A raiva, “Seu” Delegado! - ele detalhou – Nasceu lá no fígado, passou pelos peitos, arranhou os grugumilhos e ferveu o sangue no juízo. A raiva foi tanta, que ele levou a mão na cintura, mas o “treis’oitão” tinha ficado trancado na gaveta da penteadeira da Josefina, um cuidado que ela tinha com o sangue quente dele. O jeito, “Seu” Delegado, foi puxar fôlego, deixar a razão tomar conta do juízo, e ir lá, pra ver o que é que aquele povo estava pensando... Invadir a terra dos outros assim... Sem mais nem pra quê? ‘Tavam pensando o quê? Que aquilo era terra da Mãe Joana... Qualquer um chega chegando, como se fosse dono?

Foi um “Deus-no-Acuda”, “Seu” Delegado! Empurra pra lá... Empurra pra cá... Grita pra lá... Grita pra cá... O entrevero ‘tava armado, “Seu” Delegado! E a coisa só piorou, com a chegada do Capataz e dos vaqueiros... Quando a Dona Morte estava pra dar gargalhada fazendo a colheita de almas... Deus, sempre bondoso na Sua misericórdia, mandou o Padre Anselmo acompanhado do pessoal do INCRA.

Demorou um pouco, ‘Seu” Delegado! Ainda teve uns sopapos pra lá, outros pra cá... Mas, aos poucos, o “pega-pra-capar” foi acalmando... acalmando... E todo mundo foi se ajeitando, uns de pé, outros de cócoras, alguns outros sentados... Todo mundo se ajeitou no terreiro, “Seu” Delegado! E foi aí que o Padre Anselmo chamou eu e o chefe daquele povo pra conversar!

Conversar o quê, eu não sei, “Seu” Delegado! As terras são minhas, e eles, invasores! Conversar o quê? Mas... Foi o Padre Anselmo quem casou o Bartozinho, pai do meu neto... E sabe como é, né? O respeito é grande pelo Padre Anselmo, embora ele tenha dito que eu fiz ameaças para aquele povo. – explicou ainda o Bartolomeu.

E aí, “Seu” Delegado, dum grupinho que estava de pé no lado do jipe, saiu um tipinho metido a peitudo, ajeitando o boné vermelho na cabeça, puxando as calças pra cima, como quem diz: “Agora é comigo!”. Ficou lá, no meio do terreiro, parecendo um galinho “garnizé”. Arrotando vantagem e dizendo que a minha fazenda era latifúndio e que ia ser repartida com aquele povo que estava ali, e mais uns que estavam a caminho.

“Seu” Delegado – rosnou o Bartolomeu -, depois que o “garnizé” arrotou a empáfia, eu quis voar nos “gruguminhos” dele. Fui contido pelo Padre Anselmo! Quase começou outro entrevero... O Padre Anselmo acalmou todo mundo... Quando os ânimos serenaram, o Padre Anselmo disse que o “garnizézinho” já tinha falado e que agora era a minha vez de falar, e que depois o pessoal do INCRA também podia falar.

Então, “Seu” Delegado, eu engoli o sapo, e que baita sapo!; e comecei o falatório pela história da minha família. – Bartolomeu concluiu a primeira parte do depoimento.

O advogado do Bartolomeu aproveitou o curto intervalo, pediu uma pequena pausa para todos irem ao banheiro, tomar um café, e quem sabe até fumar um cigarro, com a permissão do Delegado, e coisa e tal... O Delegado assentiu, e todos foram ao banheiro, para mesinha de café, mas sem permissão de saírem para fumar. O Delegado, cônscio de seus deveres, informou que estavam ali, em depoimento para Inquérito Policial, e não para uma reunião de amigos.

- o –

De volta à mesa, todos sentados, o Bartolomeu iniciou a segunda parte do depoimento:

-Intonce... Apôis, “Seu” Delegado! – e iniciou a história da sua família na posse das terras em questão.

Depois que o Padre Anselmo acalmou tudo, eu subi no batente do alpendre da Sede da Fazenda, e contei como tudo começou... Mas contei só o resultado, o resumo como o meu filho diz! Para o senhor eu vou contar a história toda... E tudo começou lá pelos idos dos anos 1970, na época da copa da Argentina, em 1978.

Meu avô, o primeiro Bartolomeu, depois de passar anos, só ele e minha avó e meu pai ainda menino cagão, derrubando tronco de pau que três homens de braços abertos não abarcavam; arrancar toco, raiz da grossura de braço; enfrentar a selva, amansar e depois domar a terra, brigando com onça, cobra de todo tipo, maleita e malária... Um dia, o meu Avô estava lá na lida, fazendo “coivara[1] antes da chuva, pra plantar a roça de milho. Disse o meu pai, o segundo Bartolomeu, que era rapazote por esse tempo, que o meu avô tinha mandado ele dar um pulo até o “rabo-de-jacu[2], pra aumentar o volume do rádio “Transglobo” - um rádio da época que precisava de 8 pilhas grandes pra funcionar -; ele queria, lá do meio da quiçaça, ouvir o jogo do Brasil contra o Peru. O volume alto, ia gastar mais rápido as pilhas; mas o Vô era doido por futebol, tinha comprado caixas e mais caixas de pilhas, só pra ouvir os jogos do Brasil. Pois bem, “Seu” Delegado, disse o meu pai, que o volume do rádio ficou tão alto, que ele quase não ouviu o primeiro tiro da saraivada de bala que cobriu o Vovô e o meu pai. Meu pai falou que foi salvo pelo “Transglobo”. A bala que ia pro peito dele, parou no rádio, engatada nas pilhas. E o meu avô, uma bala pegou lá pela coxa dele; depois ele viu, a danada da bala atravessou pela perna sem pegar em nenhuma veia. Passou limpa! O meu avô caiu de borco. E ficou lá, deitado de barriga pra baixo, por detrás do monturo de um ninho de cupim. Pela descrição do meu pai, era do tamanho daquele ali, ó!, perto do curral. E o meu pai, com o papôco dos tiros, imbiocou pelo mato rasteiro, pelo meio da quiçaça, todo arrepiado de medo, mas carregando a .22 dele, mais a 2 canos do pai dele. Uma espingarda calibre 12! Se arrastou na direção do pai dele, carregando as armas e o embornal com a matula do “de-comer” mais a munição. Dizia o velho Bartolomeu, meu avô, que a comida e a munição nas terras do Burareiro, tinha que andar sempre juntas no embornal. Uma dava vida, a outra mantinha. O velho Bartolomeu, “Seu” Delegado, era bruto e sistemático, mas tinha lá, as sabedorias dele. Só dele!

O Delegado assentiu com a cabeça, e instigou o Bartolomeu continuar com a história dele.

Pois é, “Seu” Delegado, naquele dia, lá no meio da mata derrubada... E por falar em mata derrubada, o senhor sabia, “Seu” Delegado, que naquele tempo, o posseiro era obrigado a derrubar 80% da terra? Se depois do tempo de posse determinado pelo INCRA, o posseiro não tivesse cumprido a obrigação de derrubar a mata, ele perdia a pose da terra? Sabia, “Seu” Delegado? Sabia não, né! Huuuum... Pois então, naquele dia, se esgueirando pelo meio das coivaras, o meu pai, o segundo Bartolomeu, chegou até onde estava o velho Bartolomeu. Chovia bala por tudo o que era lado. Por cima da cabeça, dos lados, pelos pés... Numa barulheira medonha! Lhe digo, “Seu” Delegado, o sujeito pra manter o sangue frio, no meio de uma saraivada de balas, tem que ser macho... Muito macho! E o dois, meu pai e o meu avô... Os dois eram muito machos! Pois não é, “Seu” Delegado, que o meu avô, pegou a 12 dele, no meio da chuva de balas, encheu os bolsos de cartuchos e se esgueirou pra detrás de uma Sapopemba. E de lá, viu um dos jagunços... Estranhou o nome de jagunço, “Seu” Delegado? É que nós, quer dizer, meu avô e meu pai, vieram do sertão da Paraíba. E lá, pistoleiro, é chamado de jagunço! Por causa do cangaço, sabe?

Bartolomeu respirou fundo, bebeu um pouco de água, e continuou... O meu pai ficou no lugar de onde o pai dele tinha caído. De lá, respondia os tiros dos jagunços com espingarda .22 dele. Acontece, “Seu” Delegado, que a .22, é arma de matar passarinho nhambu, uma paca, um tatu... Dependendo da mira do caçador, dá até pra matar uma capivara. Faz mais barulho que estrago! Daí, que os jagunços acharam que o meu avô estava no papo. Criaram coragem... Saíram atirando de peito aberto. Aí, o velho Bartolomeu comeu o primeiro com a chumbeira[3] dele! A carga de chumbo abriu uma rosa vermelha no meio dos peitos do safado! Disse o meu pai, que a carga de chumbo quando bateu nos peitos do disgramado, foi a mesma coisa que um coice de cavalo xucro. Foi o chumbo bater nos peitos e jogar o “coisa ruim” mais de metro pra trás. Foi quando os outros arrenegaram a coragem... Perderam o tino... Não contavam com resistência e procuraram esconderijo!

Meio atarantados, “Seu” Delegado! Meu pai contou... Uns correram para um lado, outros correram para o outro... Nisso, um tropeçou, perdeu o esconderijo, ficou de cara aberta... Limpinha... De frente para o meu pai... Aí, a espingardinha porquêra teve valor... A carga de chumbo .22 encheu a fuça do... Com perdão da palavra, “Seu” Delegado! Encheu a fuça do filho-da-puta de chumbo. Ele emborcou ali mesmo... Quase em riba do meu pai! O meu pai disse que deu um gritinho de satisfação... Se morresse, já tinha levado um, o pai dele outro! Já estavam no lucro...

Mas aí, “Seu” Delegado, meu pai contou, foi quando ele ouviu o berro do pai dele: “Bartozinho, levei outro tiro! Aguenta aí, que eu aguento daqui...

Bartolomeu bebeu mais um gole de água e continuou... À lembrança da emboscada, uma furtiva lágrima de emoção umedeceu um olho. Sabe, “Seu” Delegado, entrar num entrevero... Quero dizer, entrar não! O meu avô e o meu pai foram forçados a entrar no entrevero... Eles estavam trabalhando bem do seu... Quem queria as terras deles é que forçaram o entrevero! Dois deles já tinham embarcado para o inferno; meu avô, estava lá, com dois buracos no corpo... O meu pai, ainda estava safo... Mas o velho Bartolomeu, meu avô, estava muito ferido... Perdendo sangue... O negócio ‘tava feio!

Pois é, “Seu Delegado! – às vezes, o Bartolomeu, contando a história, perdia-se em reminiscências – entrar em um entrevero com arma que tem que quebrar o cano para carregar a munição, o vivente já entra em desvantagem... Demora muito pra carregar a arma... Veja só, o vivente quebra o cano, tira os cartuchos queimados, bota a mão no bolso pra tirar nova munição, calça o cartucho na câmara, trava o cano, aponta a arma quase sem fazer mira e... Pow! Aperta o gatilho... É judiação! Do outro lado, do lado dos jagunços, eles tinham .38 e rifles... Tudo arma de repetição! Carrega uma vez, dá um monte de tiro... E, enquanto um carrega, os companheiros calçam chumbo grosso para o outro lado... O meu pai disse que depois do entrevero, contou, com os que ficaram estirados e os que fugiram... Dava uns seis jagunços!

Pois é! No meio das cargas de chumbo - meu pai contou -, se arrastou até o meu avô que já estava quase nas últimas, entregou a espingarda porquêra pra ele, pegou a 12 do velho, encheu os bolsos de cartuchos... E, enquanto o velho Bartô distraia os disgramados com um tiro ou outro, o meu pai, Bartozinho, rapazote ainda... Deu a volta por trás dos... Peço desculpas de novo, “Seu” Delegado! Deu a volta por detrás dos filhos-da-puta, e queimou dois... Um tiro de cada cano da .12! Depois da carga de chumbo nos safados, ele só ouviu os outros deitando carreira pelo meio da mata! Ele disse, que de relance, ainda deu pra ver uns dois batendo o pé na bunda, de tanto que corriam...

Meu avô, “Seu” Delegado, ainda aguentou uns quinze dias no fundo da rede... Morreu branco que nem uma vela, meu pai contou... Morreu sim! Mas assegurou as terras da família dele.

Anos depois, “Seu” Delegado, aconteceu a mesma coisa com o meu pai... Antes dele embarcar para o Céu ou para o Inferno, não sei! Espero que os dois, meu avô e meu pai, estejam no Céu! Meu pai mandou antes dele, bem uns cinco jagunços, fora os que ele botou pra correr debaixo de chumbo... Tudo na defesa das nossas terras... Ele morreu sim, mas mamãe segurou o repuxo com quem veio tirar leite sem espuma pra cima dela... Sempre com a .12 do meu avô na mão! Quando meu pai morreu, eu era meninote de leite ainda... Minha mãe tinha cabelo nas ventas... Morreu faz um tempo... Morreu na cama, de maleita! Quando ela morreu, eu já era taludo... Herdei a .12 do meu avô, que meu pai herdou, que meu filho vai herdar, e que o meu neto, um dia, vai herdar também...

Sabe, “Seu” Delegado! O senhor é novo aqui... Conhece pouco a história do povo do Projeto Burareiro[4]. Por isso, eu contei toda a história para o senhor. Para o povo de bandeira e chapéu vermelho, eu encurtei a história... Eu só disse o resumo:

Eu disse pra eles, que as terras que eles estavam querendo tomar, de primeiro, foi aguada com o suor do meu avô e do meu pai... Derribaram mata, fizeram coivara, fizeram arrastão com correntão[5] pra tirar os pés-de-paus caídos! No muque, tiraram troncos de mogno, cerejeira, cedro, imbaúba e o que mais apareceu pela frente... Pegaram malária, mataram onça pra não morrer, foram mordidos de cobra, encheram os pés de espinho de tucumã, e rasgaram os peitos e os rostos com espinho unha de gato... Deixaram a terra limpa pra plantar! Aí, quando estava quase tudo pronto, vieram os jagunços, como eu lhe contei! Aí, não teve jeito, adubaram bem adubadinha, a terra que quiseram tomar deles.

Foi o que eu disse! O sangue e o corpo do meu avô e do meu pai adubaram essa terra... Deles e dos safados que quiseram tomar deles. Minha mãe e minha avó também estão enterradas aqui... Eu também vou ser enterrado nesta terra... Ela é boa de plantar porque foi bem adubada... E foi ai, no final do resumo, que eu gritei pra eles:

“ESTA TERRA É DA MINHA FAMÍLIA TEM MAIS DE 40 ANOS... QUEM QUISER TOMAR, VAI FICAR NELA... COMO ADUBO!”

E foi assim que nós viemos parar aqui, “Seu” Delegado! Se o senhor acha que eu estou errado, bote a Lei pra cima de mim... Que eu boto advogado! Boi não vai faltar pra gastar nos tribunais!

Pronto, “Seu” Delegado! Dessa boca não sai mais nada, num sabe?

Arigó
João Pessoa/PB-Fev/2020



[1] Coivara: Quantidade de galhos, gravetos ou ramagens a que se deita fogo, para limpar o terreno e adubá­˗lo com as cinzas, preparando-os para a lavoura.
[2] Rabo-de-jacu: Abrigo provisório, tapiri, construído com folhas de palmeiras assentadas sobre armação de madeira.
[3] Chumbeira: Espingarda de caça. Utiliza munição de cartuchos carregados com pequenas bolinhas de chumbo.
[4] Projeto Burareiro:  Assentamento Rural denominado “Projeto de Assentamento Dirigido-PAD Burareiro, na Região de Ariquemes/RO, criado em 21.04.1974. Neste projeto, foram distribuídos Lotes Rurais com tamanhos médios de 125 a 50 hectares, para 5.585 famílias oriundas das Regiões Sul/Sudeste/Centro Oeste e Nordeste.
[5] Correntão: Implemento agrícola composto por uma corrente de aço reforçado com elos de até 40 cm. Cada uma das extremidades é presa em um trator que varre toda a vegetação por onde ela passa.

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