Mr. Fkeness - Reedição
Um conto por Chico Chagoso
Menção honrosa na Antologia "Sem Fronteiras pelo Mundo"
Na pequena estação de Rio Calmo o grande relógio do saguão marcava três horas e vinte minutos. O sol estava à pino e o relógio, quebrado há muitos anos. E isso era, também há muitos anos, a única anomalia daquela cálida e minúscula vila, às margens da Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
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| Litorina (OCAMPO) |
O apito do trem do meio dia se fez ouvir por toda a redondeza. Não houve alvoroço na estação. Primeiro porque só havia o zelador, que também era o vigia e dona Zefa Princess, Princesa Preta, para os íntimos, que cuidava da lanchonete. Depois porque aquele trem era o cargueiro da quinta. Ele não parava ali, nunca! Dona Zefa se preocupava com o preparo de tapiocas, mingaus, bananas fritas e outras comidas típicas para receber o trem das duas... Assim, tanto o apito quanto o próprio ranger dos vagões já integravam aquela reinante e monótona quietude. Mas de repente a experiência de trinta e tantos anos de estação fizeram dona Zefa perceber, pelo barulho diferente na composição que se aproximava, que o trem estava diminuindo a marcha. "Mr. Sleeper! O trem vai parar!" gritou para o vigia que fazia sua sesta numa mesa isolada. "Mas ainda não são duas horas...", retrucou, visivelmente confundido, enquanto levado pelo costume dos músculos consultava o velho relógio quebrado. "Por esse aí oh! Até já passa da hora!" resmungou... indicando com um olhar comprido.
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| Cegonha (OCAMPO) |
Estava certa dona Zefa: O trem parou. Mas foi uma parada anormal. Traziam no cargueiro um velho ferroviário ardendo em febre. "Daqui a pouco passa a litorina e leva Mr Fakeness para Porto Velho. Ninguém sabe o que ele tem. ", sentenciou o Chefe da composição, que após acomodar o coitado numa velha poltrona seguiu viagem.
Mas o tempo foi passando e nada da tal litorina chegar. Foi então que o pessoal da manutenção dos trilhos passou de cegonha e avisou que a litorina estava quebrada a poucos quilômetros dali, sem previsão de reparos. Sugeriram levar Mr. Fakeness para Guajará-Mirim, no trem de passageiros que passaria logo mais, mas essa ideia foi logo descartada. O fuzuê tava tão grande que até esqueceram do objeto principal, na berlinda: Mr. Fakeness, James Fakeness, nosso doente. "Mr Fakeness sumiu", gritou dona Zefa - "Mas não foi longe, pois deixou o relógio de algibeira"
Sumiu mesmo! E foi, sim, pra muito longe. Misteriosamente desapareceu! Ninguém sabia o seu paradeiro. Até a ministração da Ferrovia empenhou-se em localizá-lo, três dias depois do ocorrido. Muita gente queria declará-lo morto, mas para isso um ritual burocrático era necessário e, nesse caso, ninguém queria abraçar a causa. A notícia se espalhou por toda a Ferrovia e não se falava em mais nada de Porto Velho Velho a Guajará-Mirim.
Na madrugada do quarto dia, terça-feira, 19 de setembro de 1944, Mr Fakeness reapareceu na mesma Vila de Rio Calmo, para apanhar o velho relógio de algibeira que ali tinha deixado. Havia pouca gente, na estação mas logo chegou o trem que vinha de Guajará-Mirim e toda a tripulação quis saber o que ocorrera. Foi aí que Mr Fakeness começou a narrativa que se segue.
“Pois bem, gente! No meio daquela confusão um índio Karipuna me levou para a sua aldeia. No caminho, me fez mastiguei uma raiz e a minha febre aliviou. O pajé da aldeia é um americano chamado Carl Lovelace, que dizia ser médico. (Esse nome, não me é estranho) Ele me deu Aralen, um remédio que só ele tem. Ai fiquei em repouso absoluto por três dias. Depois o mesmo índio veio me trazer aqui perto. Estou totalmente curado.”
De princípio a história não ofereceu nada de especial a não ser no que dizia respeito ao pajé/médico americano. Ainda assim, no dia seguinte Mr Fakeness foi chamado no gabinete do diretor e repetiu a mesma história, dessa vez com mais detalhes, ante a incredulidade do administrador. “ Doutor, é a pura verdade. Sem aumentar ou diminuir.”, concluiu.
— Pois bem! Carl Lovelace foi um médico que esteve por aqui até 1913, daí voltou para os Estados Unidos. Já deve ter mais de sessenta anos, se já não faleceu... Esse remédio aí que o senhor está dizendo ter tomado, Aralen, consultei três médicos e nenhum deles sabe do que se trata. O tal “Doutor” lhe explicou alguma coisa sobre ele? O senhor por um acaso tem uma amostra dele.
— Não deixou trazer, não senhor. Disse que é o remédio do futuro... Mas disse também que era um tal de "cloro-quinino"
— "Cloroquina"?
— Isso! O senhor conhece?
— Não! Só de ouvir falar. Ainda está em pesquisa.
O tal medicamento realmente ainda estava em fase de pesquisa e nem nos Estados Unidos havia sido liberado para uso humano. Fizeram um pacto de silêncio para que a quietude voltasse a reinar na ferrovia, sobremaneira em Rio Calmo. E quase deu certo. Quase! Pois poucos dias depois, um jornal local estampou a manchete "Morre no Texas Carl Lovelace" e acabou a calmaria de Rio Calmo, assim como a de toda a ferrovia. "O Médico Carl Lovelace morreu no dia 14 deste mês, aos 68 anos e alguns meses de idade, deixando uma linda história de vida...", prosseguia a matéria. Um exemplar do jornal ficou “bolando” pela estação até protagonizar outra situação inusitada…
— Princesa Preta! - Gritou apavorado Mr. Sleeper — Foi na quinta!
— O quê foi na quinta, homem de Deus!
— A morte do Dr. Lovelace! No mesmo dia que Mr. Fakeness desapareceu, mulher…
— Mesmo?... Nossa senhora! Agora me deu medo, Mr. Sleeper!
— Princesa, a senhora não vai acreditar, tem mais uma coincidência. O Dr. Lovelace morreu um dia depois no aniversário de criação do Território. Exatamente um ano e um dia da criação. Deve ter morrido feliz, com a nossa emancipação…
Alguns anos depois…
— Aralen! — Grita Mr. Sleeper, olhando por cima dos óculos e do jornal que lia na velha mesa do canto, como se buscasse com o olhar a presença de dona Zefa Princess.
— Quem é essa? Tá sonhando, Mr Sleeper? — Resmungou Emile Princess, filha de dona Zefa e nova administradora do “Restaurante”.
— É o novo remédio para impaludismo, que inventaram agora!
— Sim, mas… porque o espanto?
— É o mesmo remédio que Mr Fakeness tomou, quando desapareceu… indicado pelo espírito do Dr. Lovelace… Se dona Zefa fosse viva entenderia o que estou dizendo… E principalmente o que estou sentindo…
— Durma Mr. Sleeper, durma!


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