O Troco


O condicionador de ar vibrava como um helicóptero prestes a alçar voo. Ainda que as luzes de “led” do controle de temperatura mostrasse o número 16 e o ícone ao lado dele pulsasse a figura de um floco de neve, ambos na cor amarelo limão, indicando que o aparelho estava programado para a temperatura mínima, a sensação dos que estavam na sala, sentados em volta de uma grande mesa, era a mesma de um frequentador de sauna. O ar pesado do ambiente, retratava, em suas nuances, a sensação claustrofóbica que exsudava dos poros dos adultos em contraste com o plácido semblante da adolescente postada na cadeira localizada no meio da mesa.

Contando com a adolescente de rosto cândido que, naquele momento, as pálpebras semicerradas escondiam os olhos castanhos claros, fixos em um ponto indefinido na beirada da mesa, os demais membros da inusitada reunião, todos tensos, compunha-se dos pais da mocinha, a Conselheira Tutelar, a Psicóloga, o Delegado e o Escrivão. No canto esquerdo da sala, no sentido de quem entrava pela porta, um técnico dava os últimos retoques na afixação de uma câmera de filmagem para registrar todos os detalhes da audiência.

Depois de tomar um gole de água e afrouxar o nó da gravata, o Delegado encarou cada um dos presentes, olhos nos olhos, menos a adolescente que continuava olhando fixamente para algum ponto indefinido no tampo da mesa. O Delegado não deixou de perceber que a mãe da adolescente estava com os olhos marejados de lágrimas, e pensou: “Era sempre assim, quando os pais se davam conta das cagadas dos filhos, o comportamento deles era padrão. A mãe chorava. O pai, bufava ou simplesmente enrugava a testa! Se bem que no caso presente, aquele pai ali, até que estava tranquilo, olhando com certa ternura para filha”. E na maioria das vezes, de vez em quando, o Delegado ouvia retalhos de conversas dos pais: “Amor, onde foi que nós erramos?” Ou então: “Viu? A culpa é sua... Etc, etc e etc...!!!

Ainda absorto em seus pensamentos, o Delegado, depois de folhear as páginas do inquérito, lendo um trecho aqui, passando os olhos em outros trechos ali, instintivamente levantou o dossiê, quase o encostando no peito para esconder dos demais membros da mesa, as fotografias das vítimas que originaram a investigação em curso. O Delegado tinha quase certeza que aquela menina de carinha de anjo era a autora daqueles crimes. Era só uma questão de tempo para provar que aquele anjo de candura com os olhos baixos, recatados, sentada à sua frente, era uma perigosa assassina. O negócio era levar a entrevista com cautela e com jeito... Dar corda, e no momento certo, pááá... Dá o bote! Afinal, a menina era “di menor” e tinha um bom advogado assistindo-a. E como miséria pouca era bobagem, a garota, além do advogado, ainda estava acompanhada da Conselheira Tutelar e da Psicóloga, ambas representantes da Vara da Infância e Juventude... “Eu mereço!” – sentenciou. A autocomiseração era uma característica do Delegado.

Sufocando as elucubrações que sempre o acometiam nessas reuniões, o Delegado, após olhar um por um os presentes, fixou o olhar na Psicóloga e em seguida olhou também para a Conselheira Tutelar, ambas se fingiram de mortas. O Delegado pensou novamente: “Essas duas, estão me transformando em boi-de-piranha... Vão pensando, jararacas... Eu não vou começar a audiência pelos pais, não! Vou começar é pela menina... Primeiro, eu vou ouvir a versão dela, depois, eu vou ouvir os pais... Essas jararacas, se quiserem, que façam o trabalho delas e me interrompam... E daí, eu jogo a bola para as duas e fico na arquibancada assistindo... De boa!

-E então minha jovem? Conte-me como foi que tudo começou! Me conte tudo, desde o início, não omita nenhum detalhe... Ok? – vendo que a adolescente finalmente tirou os olhos do tampo da mesa, o Delegado concluiu – Comece dizendo o seu nome completo. O seu e o do seus pais... Está bem?

Ouvindo o Delegado, a adolescente tirou os olhos da mesa e encarou alternadamente os presentes. Primeiro, olhou para o pai que a olhava de volta num misto de ternura e surpresa; depois, para a mãe que estava com os olhos vermelhos de tanto chorar; em seguida, olhou para o Delegado, para a Psicóloga e para a Conselheira Tutelar. Voltou a olhar para o tampo da mesa, sorriu com candura, descansou as costas no espaldar da cadeira, cruzou os braços com displicência e começou a sua história:

-Seu Delegado, meu nome é Ana Maria de Souza Costado e tenho dezesseis anos e nove meses de idade. O nome do meu pai é Rodolpho José Costado, e o da minha mãe é Ana Cândida de Souza Costado. Mas na escola e na família eu sou conhecida como Aninha. E tudo começou, tipo assim...

- o -

Tem dois anos que a empresa em que meu pai trabalha, o transferiu para esta cidade. Ele veio na frente, e quando chegaram as férias do meio do ano, viemos eu a minha mãe. Aí, me matricularam naquela escola. Falaram para os meus pais que aquela escola era a mais tradicional e melhor escola da cidade. Quer a minha opinião a respeito da tradição da escola, Seu Delegado? Quer? Está bom! Vou lhe dizer... Eu não estou nem aí para a tradição da escola. Para mim, é mais uma escola em mais uma cidade em que a minha família vai morar e mais uma filial da empresa em que meu pai vai trabalhar.

Sabe, Seu Delegado! A nossa família é, tipo assim... Nômade! A gente vive mudando de cidade. Eu, já estou acostumada, desde criancinha. É sempre assim, nova cidade, nova escola, novos amigos... Nem tantos assim... E a vida foi ou vai seguindo...

Sabe, Seu Delegado, todos dizem que eu sou muito meiga, educada e gentil com as crianças e os mais velhos... Dizem também que eu sou muito inteligente... Dizem que meu QI é muito elevado... Que nada, Seu Delegado, eu apenas gosto de focar em tudo que eu faço, além de ter uma memória extraordinária... Assim, fica mais fácil para aprender, para executar, sabe? Mas, sempre tem um “mas” ou um “porém”, né? Dizem também que eu sou muito retraída... Tipo assim, introspectiva! Não é nada disso, Seu Delegado! Eu apenas, gosto de ficar no meu canto... Quieta... Observando as pessoas à minha volta... Se falam comigo, eu respondo. Se não, eu fico quieta. Na minha modesta opinião, acho que a vida é, tipo assim, um tabuleiro de xadrez, cada qual no seu quadrado, e o destino vai manipulando as peças, como no jogo... Ou melhor, como diziam os gregos antigos: “os homens planejam e os deuses riem”, o senhor não acha, Seu Delegado?

Hãhãm... Não acha não? Pensa diferente? Huuummm, está bem! Sei... Sei... Sei... O senhor quer que eu entre logo no assunto motivo desta audiência. Mas, sabe como é, né? A gente tem que, tipo assim, contextualizar o prefácio de toda essa trama que nos uniu nesta sala, para assim, entender o epílogo da história que o destino está escrevendo para nós, o senhor não acha, Seu Delegado?

Ah, o senhor não acha, não? O senhor quer é que eu entre logo na história? Está bem! Vamos em frente, então...

Delegado, o senhor já assistiu ou ouviu falar em uma série produzida pela Netflix, intitulada de “13 Reasons Why”? Não? Nunca ouviu falar e nem faz a menor ideia do que seja essa série? Caraca, Seu Delegado! Delegado, o senhor, por acaso é casado? Tem filhos? Siiim... Tem! Tem dois... Compreendo, um casal... E eles são adolescentes? Entendo! Têm doze e quatorze anos, respectivamente... E nem assim o senhor ouviu ou tem ideia do que seja a série a que estou me referindo? Estranho... Muito estranho, Seu Delegado! Essa série “mitou” no meio adolescente do Brasil e do mundo, e nem assim esse assunto circulou na sua casa? Diga-me, Seu Delegado, os seus filhos têm acesso à internet, às redes sociais?

O quê, Seu Delegado! Quem está em audiência aqui sou eu e não o senhor? Claro! Claro! O senhor tem toda a razão...

Eu sei, pai! Mas, o senhor tem que entender que tudo tem um contexto... Tudo está inserido em um meio, e que tudo, absolutamente tudo é resultado de uma ação, que por sua vez, origina uma... reação, não é mesmo? Afinal, foi assim que o senhor me ensinou... Não foi?

Está bem, Seu Delegado, vou me ater ao corpo da história e tentar esquecer a contextualização... Ok?

Então, Seu Delegado! Voltando à série “13 Reasons Why”... Nesta série, a protagonista da história comete suicídio... O quê? O senhor está perguntando se eu em algum momento, baseada na série, pensei em suicídio? Claro que não! Imagine...!!! Na verdade, Seu Delegado, eu acho o suicídio uma tremenda de uma bobagem... Como que eu acho uma coisa tão séria uma bobagem?  Claro que eu acho uma bobagem... Repito! Claro que eu acho uma bobagem, tanto do ponto de vista religioso quanto do ponto de vista prático... Se não, acompanhe comigo o meu raciocínio, Seu Delegado!

Fui educada na tradição cristã... Portanto, eu sou cristã! Pelo menos, até eu decidir o contrário! E neste contexto - veja, Seu Delegado, novamente nos deparamos com o tal do “contexto” -, a tradição cristã condena veementemente o suicídio... E não é só os cristãos que o condenam, a tradição judaica, pedra fundamental do cristianismo...

Como é que é, Seu Delegado? Como é que o judaísmo é base do cristianismo? Ora, Seu Delegado, se a família de Cristo, segundo o Antigo Testamento, era da Tribo de Judá... Judá (com o dedo polegar e o dedo indicador formando uma meia lua e girando de um lado para o outro), judeu... Entendeu, Seu Delegado?

Voltando ao meu raciocínio anterior... O judaísmo também condena o suicídio... O judaísmo e outras crenças que, neste momento, vou me abster de enumerar... Ok?

Portanto, Seu Delegado, por professar a fé cristã, eu jamais cometeria suicídio... Por credo, esse ato insano me condenaria a danação eterna. Ponto! Agora, vejamos do ponto de vista prático...

O quê? O senhor sugere que eu pule o preâmbulo filosófico religioso? Sinto muito, Seu Delegado, não dá! Pelo menos, por ora, entende? Realmente, não dá! O que eu estou falando para o senhor, quero dizer, para todos aqui nesta sala, tem a ver com os motivos que nos trouxeram até aqui... Por isso, senhor Delegado, embora pareça estranho, tantas considerações, elas são necessários para todos entenderem o cerne dessa história... Pelo menos, no meu ponto de vista, entende?

Pois bem... Do ponto de vista religioso, segundo o meu entendimento, é ponto pacífico que eu jamais cometeria suicídio como a Hannah Baker...

O quê, Seu Delegado? Quem é “Hannah Baker”? Pois é, Seu Delegado, “Hannah Baker” é a protagonista da série da Netflix... A série “13 Reasons Why” que eu falei para o senhor, lembra?

Continuando, Delegado, exatamente como o senhor quer...

Do ponto vista prático, o suicídio é uma perda de tempo sem tamanho... Tipo assim, fuga, entende? Tipo assim, uma equação de segundo grau numa prova de matemática... Você recebe a prova, olha para a questão que está ali, na sua frente... Te encarando... Você não sabe o que fazer... Não sabe resolver a questão... E aí, o que é que você faz??? Pega a caneta e faz um grande “X” em cima da equação... Deixa pra lá, ou levanta e vai embora da sala... Nénão, Seu Delegado? Você esquece o problema, mas ele não esquece você... O enunciado está lá, latente... Esperando para ser resolvido... E ele vai ser resolvido... De um jeito ou de outro... Por você ou por outra pessoa...

Como é que é, Seu Delegado? As coisa não são tão simples assim? Claro que são, Seu Delegado! Pelo menos para mim... Mas, voltando a questão da relação entre o enunciado matemático e o suicídio... No meu ponto de vista, e aí, eu ponho uma enorme ênfase no pronome possessivo “meu”, o suicídio, na prática, é um desperdício de energia. De repente, o garoto ou a garota, está com um problema aparentemente insolúvel, e aí, o que é que a criatura faz, hãm? Tira a própria vida? Beleza! O cara suicida e acha que os problemas dele estão resolvidos...  Beleza pura! E aí, eu pergunto, Seu Delegado! Adiantou? O sol vai deixar de nascer todos os dias? As flores vão deixar de desabrochar? A grama vai parar de crescer, vai?

Eu sei, eu sei, Seu Delegado! É para eu entrar logo no principal da nossa história, eu sei! Então vamos lá!

Bullying!

Essa palavra o senhor já ouviu falar, não? Claro! Claro! Eu sei que o senhor já ouviu falar... Perguntei só para tirar "uma" com o senhor... Desculpe, eu sei que o que estamos fazendo aqui é assunto sério!

E então, Seu Delegado, o senhor conhece o universo estudantil no nível de Segundo Grau? Ah! Conhece, né? Mas, conhece mesmo, ou conhece só de ouvir falar? Tipo assim, a fundo... O universo em si, como as coisa funcionam antes das aulas... No recreio... Depois da aula... No pátio... Nas redes sociais... E por aí, vai...

Conhece? É mesmo, é? Mas, conhece o universo da escola contemporânea ou do tempo em que o senhor estudava? Ahhhh, de quando estudava...

Então, esqueça, Delegado! As coisas atualmente são muito diferentes. Hoje, existe uma fauna dentro daquele habitat, que é constituída de predadores, presas e os invisíveis... Eu, por exemplo, estou na categoria invisível.

Está bem, Seu Delegado! Vou explicar essa... essa... essa, como o senhor diz, particularidade escolar. Melhor, vou exemplar...

Por acaso, o senhor Delegado assiste “Animal Planet”? Não, né! Nunca teve interesse? Eu já imaginava...

Pois bem, Seu Delegado! O programa do Canal Discovery, o “Animal Planet”, ilustra bem o bioma na seara estudantil... O programa descreve a convivência entre predadores, presas e os invisíveis em diversos biomas, tais como a savana africana, florestas tropicais e invernais, fluvial e marinho. Então, como eu falei, no ambiente estudantil, quero dizer, nas salas de aula, pátios, quadras de esportes e nos shoppings.

Estranhou eu incluir os shoppings, Seu Delegado? Pois é! O habitat dos colégios se estendem até os shoppings... É lá que a fauna dos colégios formam suas tribos. As tribos urbanas. Tais como góticos, patricinhas, skinheads, punks... Esses, são os mais conhecidos. Porém, existem uma infinidade de outras denominações.

No nosso caso, especificamente, no meu, “invisível”, é aquele espécime que consegue se mimetizar no ambiente, se camuflar, passar despercebido... Entende?

O senhor quer um exemplo? Está bem! Que tal o bicho preguiça, o polvo, as mariposas... O urutau, pássaro amazônico. E o mais conhecido de todos, o camaleão.

Quanto aos predadores, temos o leão, o tigre, o leopardo... As onças, os tubarões... Esses são os mais famosos. Temos também as hienas... Seu Delegado, as hienas em particular, para mim, é o tipo de predador que eu mais desprezo... Sabe por quê, Seu Delegado? É um animal que só mostra coragem quando em bandos... Sozinha, a hiena se esconde, anda com o rabo entre as pernas e foge assustadiça ao menor ruído. Como por exemplo, o estalar de um graveto ou roçar de folhas balançando ao vento. E para completar, Seu Delegado, faz sexo uma vez por ano, alimenta-se de fezes e carniça, e vive rindo... Rindo de quê, Delegado?

Como é que é, Seu Delegado! O que tem a ver a característica das hienas com o nosso caso? Tudo, Delegado, tudo! Ao final da minha narrativa, o senhor vai perceber que tudo o que eu estou falando tem uma razão de ser... Fazem parte de uma ação e reação. Devagar, a gente chega lá!

E quanto às presas, são as de sempre... As corças, as zebras, os antílopes, os gnus e, claro!, os animais de pequeno porte, os sem garras... Os indefesos, coitados!

Eu sei, Delegado! Eu sei que eu devo deixar os preâmbulos de lado e entrar no cerne da questão. Ocorre, Seu Delegado que, se intimaram meus pais, trouxeram uma Conselheira Tutelar e uma Psicóloga para acompanhar o meu depoimento como manda a Lei, foi para assegurar os meus direitos previstos no ECA, não é mesmo? Além do mais, Seu Delegado, o senhor decerto está ciente que para o meu depoimento nessa audiência, o Advogado da minha família me orientou que, se eu quiser, eu tenho o direito de permanecer calada. Direito esse, garantido constitucionalmente, de acordo com o meu Advogado, como é também garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Portanto, Seu Delegado, eu tenho o direito de dar o depoimento do jeito que eu quiser... Isto é, contar a história do ocorrido do meu jeito... Se não for assim, eu prefiro ficar calada e pronto! Encerro tudo aqui e agora! Sou menor de idade e Lei nenhuma pode me obrigar a falar se eu não quiser, ok? Além do mais, até agora eu não falei nada que me comprometesse... O senhor e as investigações não têm nada contra mim... Absolutamente NADA que me comprometa, correto? O que os senhores têm? Têm uma gravação de vídeo que mostra a minha entrada e saída do banheiro masculino e só. Nada mais! Portanto, repito!, seguimos a minha de narrativa ou encerramos aqui... E aí, como vai ser, Seu Delegado?

Como é que é? Se ao término do depoimento eu estou disposta a esclarecer fatos que por ventura estejam obscuros? Claro, Seu Delegado, claro!

Feito o preâmbulo, Sei Delegado, vamos entrar no corpo da história... Tudo isso, realmente começou com o...

O quê, Doutor? O senhor quer fazer um aparte antes que eu comece? Ok, Doutor!

Seu Delegado, é melhor a gente ouvir o Doutor Advogado fazer a intervenção dele... Está bem, Doutor! Estou ciente de que tudo o que eu falar pode ser usado contra mim... Estou ciente também que esse processo, em razão da minha menoridade junto com minha peculiar condição, corre em segredo de justiça... O senhor, Doutor, já havia me explicado tudo isso, esqueceu?

Huummm... Está bem! O senhor falou agora, só para lembrar, caso eu tivesse esquecido!

Continuando, Seu Delegado... Tudo isso, realmente começou, com a morte do meu namorado... Um garoto gentil, meigo e extremante tímido... Ainda assim, conseguia, assim como eu, ser um “invisível”... Conhecemo-nos no final do semestre passado, no acampamento anual do colégio... No camping do Hotel Fazenda - que, aliás, eu já conhecia de outras hospedagens com os meus pais -, procurei o meu lugar secreto, um lugar afastado, depois da curva do riacho, por detrás de uma moitas, para poder tomar um banho tranquila, sem a perturbação de ter os “donos do pedaço” de sempre, importunando a paz de quem deseja tranquilidade. Quando lá cheguei, sempre em silêncio, discreta... Eu o vi tomando banho. Depois, ainda desnudo, ficou secando ao Sol, deitado sobre uma toalha estendida na grama. A vegetação naquela área formava uma espécie de cortina natural escondendo uma prainha que havia se formado na pequena enseada do riacho. Foi puro acaso tê-lo encontrado naquele lugar.

Fiquei algum tempo observando-o... No momento, pareceu-me que ele dormia profundamente... No entanto, ele apenas estava de olhos cerrados. Absorto em seus pensamentos... E eu, que nunca tinha me interessado por qualquer relacionamento afetivo, vendo-o em toda a sua nudez... Em toda a sua peculiaridade, percebi que havia encontrado o meu convexo... Como uma ararinha azul, tinha encontrado o meu par... Me apaixonei na hora!

Quase sem me dar conta, fui me aproximando... Sem tirar os olhos dele... Da sua nudez tão peculiar...

Estava tão fascinada que não percebi onde estava pisando. Descuidei, e acabei pisando em um graveto. Foi o bastante para quebrar o encanto. Ele abriu os olhos e me viu... Assustado, ele deu um salto e escondeu o seu pudor com a toalha.

Seu Delegado, o senhor sabe como é que a gente se aproxima de um animal assustado? Pois é! Foi assim que eu me aproximei dele... Primeiro, levantei as mão à altura do peito. Naquele gesto típico de quem quer demonstrar que é pacífico... Que é de paz! Depois, percebendo que ainda existiam reticências no seu olhar, fiquei parada... Quieta! Ainda assim, ele ainda demonstrava nervosismo. Então, para demonstrar que eu confiava nele, e que portanto, esperava uma reciprocidade. Bem devagar, comecei a desabotoar a minha blusa...

Calma, mãe! Desabotoei sim! E não só desabotoei a blusa, como também me desnudei na frente dele...

Pai, Mãe, espero que vocês mantenham a calma como têm mantido até agora... Não são vocês que vivem dizendo que eu sempre fui muito madura para a minha idade? Então... Naquele momento eu sabia exatamente o que eu estava fazendo...

Então, Seu Delegado, depois do meu gesto, quem ficou surpresa fui eu com a atitude dele. Pois não é que ele, passado o momento de surpresa, depois de me ver nua em pelo, ele deixou cair a toalha e ficamos ali, parados, um na frente do outro, simplesmente nos admirando, olhando para as nossas particularidades.

Então, Pai, Mãe, Seu Delegado, a partir daquele dia, começamos um intenso relacionamento afetivo. Sentíamos que nos completávamos, entendem?

Mas, como eu sempre digo, em toda história tem sempre um “mas”, apesar do relacionamento, muito discreto. Afinal, Seu Delegado, tínhamos que nos manter invisíveis... Mimetizados no meio da turma no colégio, nos shoppings... Discretos, inclusive para os nossos pais... Apesar de sentirmos que éramos felizes... Em alguns momentos, olhando para os olhos dele, eu percebia uma sombra lá no fundo... Na verdade, eu mais sentia do que via.

Às vezes, Seu Delegado, em alguns finais de tarde, sentados lá na praia, vendo o dia ir embora, eu olhava para ele, e o via taciturno, distante... E quando eu tocava de leve o seu braço, eu sentia que ele estremecia... Às vezes, ele levantava assustado... Ficava com sudorese, os lábios tremiam, as mãos ficavam geladas...

Eu falando assim, né Seu Delegado, parece até que ele era um covarde... Não era! O senhor sabe, Seu Delegado, que um dia, na saída do shopping, uns pivetes com estiletes na mão, partiram para cima de nós, e ele, com o risco da própria vida os enfrentou para nos defender?

Vejo que o senhor, Seu Delegado, levantou as sobrancelhas com surpresa. Pois é! Ele era destemido para esse tipo de coisa, para outras não. Mas, definitivamente, ele não era um cara medroso. Porém, sempre tem um “porém”, né Delegado? Ele tinha o “Calcanhar de Aquiles”dele... E eles, Delegado, os “5 da C”, aquelas hienas vagabundas, conseguiram descobrir. E depois disso, a vida dele virou um inferno, muito antes da gente se conhecer. Aliás, Delegado, no dia em que nos conhecemos, lá no acampamento, ele me contou depois, ele tinha acabado de ser achacado pelas hienas... É por isso que ele tinha procurado aquele canto isolado... Estava tentado ficar em paz consigo mesmo quando eu apareci... E foi como disse para o senhor. De início, ele achou que eu seria mais uma chantagista, mas quando eu me mostrei para ele, o meu gesto o tranquilizou.

Como é que é? Quem são os “5 da C”? São cinco garotos da sala do Segundo Ano “C”... São os mortos das fotografias que o senhor tentou esconder ainda a pouco.

É como eu já disse, daquele dia em diante fomos companhia constante, uma para o outro. Passamos a ser duas sombras, sempre invisíveis. No entanto, as hienas dos “5 da C” estavam sempre rondando por perto dele... Achacando-o!

Eu, observava de longe... Sofrendo com ele! Impedida de intervir... Por ele!

Sabe, Seu Delegado? As hienas tomavam o dinheiro dele, levavam os tênis, o Iphone, e um dia, levaram até a mochila que os pais haviam trazido da Europa para ele... Nos últimos meses a vida dele virou um inferno... Ele não tinha mais paz.

Eu queria intervir. Contar para os pais dele, para a diretoria da escola, para a polícia. Mas ele não deixava... Ele dizia que iria resolver aquele assunto de um jeito ou de outro... Que era assunto dele. Até que eu dei um ultimato para ele. Ou ele enfrentava a situação, ou eu contaria para os pais dele o que estava acontecendo.

Pelo jeito, Seu Delegado, ele os enfrentou ao seu modo. Só que do modo trágico.

Eu sei, Delegado, eu sei! Todos estamos consternados com o suicídio dele.

O quê, Delegado? O senhor quer mais é saber o que ele quis dizer com o bilhete de despedida encontrado no bolso dele? Pois é, Delegado! Eu não tenho a menor ideia do que ele quis dizer com aquilo: “Fui obrigado a fazer!

Também não sei dizer quem fez aquilo com as hienas... Imagina, Seu Delegado! Matar os caras, castrá-los, e no lugar do saco escrotal, colar uma vagina de porca? Realmente, não faço a menor ideia de quem fez aquilo, e depois os deixou expostos lá no banheiro.

Eu sei, Seu Delegado, que tem um vídeo da câmera de segurança do corredor mostrando eles entrando no banheiro bem depois das aulas, já quase noite. E que logo depois eu apareço entrando também, fico um tempão lá, e depois apareço saindo do banheiro. Sei também que as impressões digitais no bilhete são minhas... Sei também que o exame grafológico atesta que a letra no bilhete também é minha... Quanto a isso não posso negar! É claro que eu escrevi o bilhete, e claro que eu o coloquei pregado no peito de um deles...

Como é que é? Por que eu escrevi: “Tiveram o que mereceram!” Ué, Delegado? E não tiveram, não? Os caras eram uns vermes! No entanto, nem por isso eu vou dizer que os matei, Delegado!

Negativo! Ele nunca foi gay ou trans, Seu Delegado!

Hãm? Se ele era hetero? Ao seu modo, pode-se dizer que sim... Ele optou por essa condição quando decidiu que seria homem!

XY”, entendeu?

Não entendeu, Seu Delegado? Está bem! Vou explicar... Ele era HERMAFRODITA... Verdadeiro!

Como é que eu sei que ele era hermafrodita, se os pais não deixaram fazer a autópsia e exigiram que a funerária assinasse Termo de Confidencialidade?

Ora, ora Delegado! Eu sei por que eu também sou HERMAFRODITA... Verdadeira!

Devido ao desenvolvimento pleno de um dos órgão, e me sentir bem com isso, assim como ele, eu optei por ser... Mulher!

XX”, entendeu?


OBS:

Hermafrodita Verdadeiro - O hermafrodita verdadeiro é um distúrbio raro em que a criança nasce com ambos os órgãos sexuais femininos e masculinos internos e externos bem formados, embora somente um se desenvolva normalmente, deixando o outro atrofiado. (fonte: https://www.tuasaude.com/hermafrodita/)

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