Saudades do Bem Querer


Saudades do Bem Querer(*)

Lurdes de Maria estava encantada com tantas luzes. Tantas bandeirolas coloridas... Amarelas, verdes, azuis, brancas e vermelhas. Tantas bancas com comidas de todos os tipos.

Tinha vatapá, caruru e acarajé na banca da baiana Magé, negra bonachona, sempre com os dentes branquíssimos à amostra no sorriso alegre... Espetinho de carne e de queijo, e de piaba frita na banca do “Seu” Tuím... Mugunzá, canjica, pé-de-moleque e tapioca na banca da “Dona” Zazá... Tacacá, galinha picante e pato-no-tucupi na banca de “Dona” Benta, mãe de Zezinho... Arri’égua! E Zezinho? Por onde andará?

Lurdes de Maria com os olhos brilhando, parada no meio da quermesse montada no campo de futebol do Distrito de Calama, da cidade de Porto Velho dos anos mil novecentos e setenta, avaliava tudo ao seu redor. A felicidade era tanta, que pegara escondido um foguete da caixa de seu pai e, desobedecendo as recomendações dele, acendera e soltara o foguete... Era sempre assim... Quando estava muito feliz, vinha uma vontade enorme de soltar foguete.

Ali adiante, ela via o carrinho de pipoca do “Seu” Agenor... Aquele era o carrinho de quebra-queixo do “Seu” Mané Bento? E as roletas? As barracas de pescaria? As barracas de tiro? Meu Deus! Que coisa mais linda era o mês de São João...

E Zezinho que não aparece... Daqui a pouco começa a quadrilha. Faz tempo que os meninos se lambuzam no pau-de-sebo... Também, quem chegar lá no topo vai ganhar uma ruma de dinheiro! Dizem que é tanto dinheiro que dá até para comprar uma bicicleta.
- o -
Lurdes de Maria, sentada na varanda da casinha de madeira dependurada nas barrancas do Rio Madeira, arrumou os cabelos esbranquiçados, enxugou uma lágrima teimosa, olhou para a curva do Rio, perguntando-se:

E Zezinho, hem...?!? Tantos anos de espera... Saiu para pescar e ainda não voltou!

Era sempre assim, desde a época em que crianças ainda, começaram a namorar.

Se conheceram numa Festa de São João. Pularam fogueira... Fizeram adivinhação numa bacia, pingando cera de vela... Enfiaram a faca no tronco da bananeira, fizeram três pedidos e juraram “Bem Querer” eterno... Na hora, nunca esqueceu! Os pescadores soltaram um monte de foguete... Parecia até que comemoravam a felicidade dela... “Ave Maria! E Zezinho que não chega nunca?

Primeiro, andaram de mãozinhas dadas. - esse gesto sacramentou o namoro perante as outras meninas – Depois, já entrando na adolescência, o primeiro beijo. Tímido, vergonhoso, cheio de pudor. Apenas encostaram os lábios imberbes e inocentes.

As faces coraram e ficaram um bom tempo sem saber o que falar um para o outro. Depois, se olharam fixamente e se abraçaram com força... Agora sim! Eram namorados de verdade!

Quanta felicidade ela sentiu. Deu vontade de soltar foguete.

E Zezinho, hem...?!?

Era sempre assim... Desde menino. Cresceram namorando... Passaram pela adolescência... Ficaram adultos... Noivaram e casaram... E Zezinho sempre assim... Sumia e aparecia, sem aviso!

Quando curumim1, perdido nas brincadeiras, sumia por horas. De repente, aparecia sem aviso. Suado e sorridente... Feliz da vida! Nunca dava explicações por onde andou.

Adolescente, sumia passarinhando ou pescando. Depois, aparecia sem aviso. Suarento e sorrindo... Feliz da vida! Também não dizia por onde tinha andado. Apenas oferecia a ela o fruto do sumiço... Às vezes, um curió2 ou outro pássaro cantador. Outras vezes, um peixe colorido – enchia uma lata com água e trazia com todo o cuidado do mundo -, um preá ou um macaquinho ou ainda um filhote de papagaio ou arara... Uma vez, trouxe um filhote de onça... Sempre imprevisível, carinhoso e atencioso, o Zezinho!

Adulto, por conta do trabalho de mateiro3 e pescador, sumia na mata ou nos rios, igarapés e lagos por dias... De repente, ele aparecia... Suado, enlameado e sorrindo. Sempre com uma prenda a ofertar:

Um vestido de chita vistosa... Um brinco ou um colar de metal brilhante... Um pente de osso ou uma fita de seda para prender os cabelos... Um sapato de festa... Daqueles bem vermelhos. Tudo comprado no regatão4. Gastava tanto pra quê? Nem precisava!

Quando o Zezinho chegava, não importava a hora... Era uma festa! Tantos carinhos, tantos mimos... Tantas vezes o punho da rede arrebentou no amor frenético do reencontro. No repouso dos folguedos da paixão. Fazendo o café, ela tinha vontade de ir para o terreiro e soltar um montão de foguetes... Tanta era a alegria.
- o -
A alegria era tanta que parecia Festa de São João.

Tantas vezes eu soltei foguete,
Imaginando que você já vinha.
Ficava cá no meu canto calada,
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha.

Quantas vezes ela pediu para ele mudar de serviço... Procurar um trabalho normal... Ele sorria e dizia para ela: “Ô meu mel! Se me tiram das matas e dos rios, eu morro de panema5, meu mel”. Depois, ele acariciava seu colo, cheirava o seu pescoço e a beijava profundamente... E ela esquecia suas preocupações.

“É como diz João Cabral de Mello Neto
Um galo sozinho não tece uma manhã.
Senti na pele a mão do teu afeto
Quando escutei o canto de acauã.
A brisa veio feito cana mole.
Doce, me roubou um beijo,
Flor de querer bem.
Tanta lembrança este carinho trouxe...
Um beijo vale pelo que contém.”

Muitas vezes ela ficava sentada na barranca do Rio olhando para curva onde o Sol se deitava... De longe, ela via um canoeiro perdido no lusco fusco da tarde parecendo um fantasma sentado no jacumã6... Nunca dava para saber quem era o remador até que o “casquinho” saía da curva e se encostava no trapiche.

Tonico Piaba, lembrava vagamente o “Bem Querer” dela... Mas, era é nunca que era igual. Imagine???? Às vezes era o Zezinho, outras vezes...”

“Tantas vezes eu soltei foguete
Imaginando que você já vinha
Ficava cá no meu canto calada
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha”

Quem vinha subindo o Rio, da curva até o trapiche, demorava muito para chegar. Nessas ocasiões, pelo sim, pelo não... Ela, com o coração aos pulos, corria até a casinha de madeira e preparava tudo para a recepção do seu “Bem Querer”...

“Tirei a renda da naftalina
Forrei cama, cobri mesa
E fiz uma cortina.
Varri a casa com vassoura fina,
Armei a rede na varanda,
Enfeitada com bonina”

Outras vezes, cansada de esperar, ela apenas ficava sentada no barranco com o olhar perdido no horizonte, olhando o canoeiro se achegar no barranco. O Sol já se ajeitando para dormir lá pela curva do Rio, encandeava quem olhava para ele. Nessas horas, nunca dava para saber quem desembarcava no trapiche para subir o barranco. E ela pensava: “Acho que hoje ele não vem!

“Você chegou no amiudar do dia,
Eu nunca mais senti tanta alegria.
Se eu soubesse soltava foguete,
Acendia uma fogueira,
E enchia o céu de balão.”

Quando era ele, seu peito arfava, a respiração acelerava e seus olhos brilhavam... Ela nem ligava para o corpo suado e as mãos calejadas que corriam pelo seu corpo esguio. Os beijos eram tão sôfregos que a angustia da eterna espera apequenava-se nos carinhos e mimos que ele dava para ela. Eram dias felizes o tempo em que ficavam juntos.

Acendiam fogueiras nas noites frias... Balançavam na rede nas tardes quentes... E nos banhos de igarapés, colavam os corpos desnudos e famintos de paixão.

“Nosso amor é tão bonito, tão sincero
Feito festa de São João”


João Pessoa/PB-Jan/2016

(*) – Conto inspirado na canção “Foguete”, letra composta por Roque Ferreira/J. Velloso e interpretada por Maria Bethânia. Texto da canção copiado do “site”:  vagalume.com.br



Glossário:
  1. CURUMIM - menino; criança.
  2. CURIÓ - Ave passeriforme, fringilídea (Oryzoborus angolensis), distribuída por todo o Brasil. O macho é preto, com abdome vermelho, um espelho branco na asa, e a fêmea, parda, com a parte inferior amarelada.
  3. MATEIRO – explorador de matas, que através delas se guia sem o auxílio de bússola, quase que por instinto. (Bras. Amaz.).: abridor de estradas de seringa na mata.
  4. REGATÃO – vendedor que percorre os rios de barco, parando de lugar em lugar praticando o comércio de escambo. Vende as mercadorias para os ribeirinhos e recebe em troca, produtos da fauna, flora e dos rios.
  5. PANEMA - adj. e s.m. Diz-se do caçador ou pescador que nada caça ou pesca. Vítima de feitiço. Sujeito sem sorte, infeliz na vida; caipora, azarento.
  6. JACUNÃ – remo indígena, em forma de pá. Governo de uma canoa com um remo de mão em uma de suas extremidades; normalmente, na popa.

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