A Pedra da Yara - Parte 01



A Pedra da Yara

Parte 01

As férias há tempos sonhadas, começariam na segunda-feira. Porém, ele tinha tudo planejado com antecedência de meses. Viajaria na sexta-feira mesmo, saindo de São Paulo. As malas já estavam prontas, e ele, impaciente, só esperando o final do expediente para passar em casa, pegar a mochila com as poucas roupas que iria precisar, a botina Caterpillar, uma sandália havaiana, uma sandália “Crocs”, a tralha de pesca, a mochila do notebook e todos os hardwares auxiliares – que culpa ele tinha de ser um tecnófilo? – por isso, para onde quer que ele fosse, carregava sempre na mochila, pendrives, HD externo com vários filmes e séries gravados, HD com vários backups de programas diversos e Sistemas Operacionais; máquina digital de fotografia e, claro, o Iphone de última geração. Ele sorriu divertido com sua mania de precavido... Levava também na mochila do notebook, baterias sobressalentes para o computador portátil, celular e, suprassumo da prevenção, carregadores de baterias, solar e manual, levava também, carregadores acionados por manivela. Vai que, de repente, ele ficasse num lugar sem energia elétrica e com o tempo chuvoso...

A namorada Dorinha, desta vez não viajaria com ele... Estava envolvida em um estágio super importante, na opinião dela... Ele também, desta vez, não iria para as praias do Nordeste, as lindas praias da Paraíba e nem para o exterior... Desta vez, ele iria se isolar do mundo, iria para um lugar bem remoto do país... E que lugar melhor que a Bacia do Guaporé, bem ao Norte do Estado de Rondônia... Ali pelos lados de Costa Marques, São Miguel do Guaporé, cidades fronteiriças com a Bolívia... Pesquisando no Google, ele encontrara o “link” de um hotelzinho temático bem no meio da floresta, entre rios e lagos piscosos... O plano era pescar durante o dia, e à noite, descansar, vendo um filme ou um seriado. Com sorte, quem sabe? Poderia ter até internet com razoável velocidade no tal hotel temático.

O roteiro de viagem seria bem simples... Ele iria de avião até Porto Velho, depois, embarcaria num ônibus na Rodoviária local e iria até Guajará Mirim. Então, embarcaria em uma catraia1 e subiria o Rio Mamoré até o Forte Príncipe da Beira, e lá, visitaria um primo, Oficial do Exército, lotado no batalhão que guarnecia o Forte e, de lá, iria de carro até Costa Marques. A viagem demoraria uma semana, rio acima, mas o plano era esse mesmo. Isolar-se do mundo. Ele, sua tralha de pesca e tecnológica se bastavam!

Além dos filmes e dos seriados, ele também baixou alguns livros ePubs. Dentre eles, um muito curioso, famoso até, indicado por uns amigos queridos residentes em Porto Velho, o Zé Lelé e sua interessante namorada, a Aninha; ela, muda surda. Ambos bibliófilos.

O livro, “Rei de Amarelo”, compilação de vários contos surreais de Robert W. Chambers, indicado por Zé Lelé, era um livro de contos bem surpreendentes. Num deles, o autor narrava uma história fantástica de uma cara que, de repente, lá pelos lados das Ilhas Britânicas, ver-se perdido em uma charneca2. Um lugar ermo onde é fácil entrar, mas, ninguém que lá entrou, conseguiu sair. E, nesse sítio, o cara encontra uma moça que nunca saiu daquele lugar, e que é praticante da arte da falcoaria, sempre ladeada por três caras que têm nomes da mitologia céltica. Pois bem, os quatro, a moça e os três caras de nomes mitológicos fazem um tour pelo lugar com o visitante inesperado; depois, o devolvem à civilização, com um pequeno detalhe... O cara é encontrado meio louco. Pirado das ideias!

Em outro conto, a história refere-se a dois pianistas que ficam em torno de dez anos estudando a partitura do “Estudo Transcendental Nº 5 “Feux Follets” (Fogo Fátuo)”. Esta partitura, é a quinta das doze do conjunto de estudos da obra “Doze Estudos de Execução Transcendental” de Franz Liszt3, iniciada em 1826 e terminada em 1851. De execução dificílima, e para executá-la, era exigido do pianista, perfeito apuro técnico e intuição musical... Sim! Intuição musical, dada a dissonância harmônica das notas. Pois bem! Após exaustivos dez anos de ensaios diários que exigiram várias horas de dedicação exclusiva de dois amigos, finalmente, a dupla se deu por satisfeita e resolveu marcar a data do concerto. No dia do “vernissage” ou pré-estreia como preferem alguns, durante uma pausa nos obsessivos ensaios de última hora, um jovem estudante de piano, com idade por volta de treze a quinze anos, passeando pelo teatro, e impulsionado pela inata curiosidade e impetuosidade típicas dos adolescentes, deparou-se com o magnífico piano ostentando no suporte, o livro de partituras com a página do “Estudo nº 5” exposta à curiosidade de quem por ali passasse; por simples divertimento e transgressão juvenil, o infante sentou-se na banqueta e executou a obra de Liszt. O jovem iniciou a regressão rápida de notas dobradas com intervalo das mãos com tanta perfeição que, se Rachmaninof recebesse inspiração das musas Calíope, Euterpe, Polímnia e Terpsícore, e ainda assim, tivesse as mãos guiadas pelo próprio Orfeu, não faria uma execução tão sublime e espontânea.

Após alguns minutos de surpresa e encantamento, os dois amigos pianistas saíram dos camarins e caminharam até o palco para conhecer quem era capaz de executar com sublime maestria tão dificílima obra, motivo de suas obsessões na última década de suas vidas. E, ao depararem-se com um jovem ainda imberbe sentado à banqueta. Estupefatos, perguntaram-lhe a quanto tempo o moço estudava aquela obra para executá-la com tão divina perfeição. O jovem na descontração própria da idade respondeu-lhes:

-Eu nunca tinha visto esta partitura, Tio! É a primeira vez que eu toco esta obra.

Algumas horas depois, pouco antes do início do concerto, os dois pianistas foram encontrados enforcados nos respectivos camarins. Haviam se suicidado.

Por este insólito conto e outros ainda mais estranhos, o livro “O Rei de Amarelo” tinha fama de ser maldito.  A lenda urbana dizia que o livro tinha a fama de ser protagonista de vários suicídios. Quem o lia por completo, invariavelmente se suicidava.

Ele sorriu ao lembrar-se da fama do livro. Cético e extremamente racional, ele, às vezes, em debates filosóficos com o amigo Zé Lelé e sua enigmática namorada, Aninha, em tom de brincadeira, dizia-se um discípulo de Kant, ou “só podemos conhecer os fenômenos que nos são acessíveis pelos sentidos...”

Logo. “Vejo, creio!

Levaria sim, o livro “O Rei de Amarelo” para lê-lo, por inteiro. E, assim, derrubar o mito do suicídio.

-o-o-o-


Ele desceu do barco no trapiche do Forte Príncipe da Beira4 e, depois de degustar uma saborosa caldeirada de tambaqui regada com muita “pimenta murupi5” como refeição principal do almoço promovido pelo primo - o que o deixou com a boca em brasa por longo tempo pelo sabor extremamente picante da pimenta -, ele seguiu para Costa Marques e de lá, para o hotel temático à margem do Rio Guaporé.

Quando a noite cobriu com o seu manto salpicado de estrelas a enseada que o Rio formava em frente ao Resort, uma brisa refrescante convidava os hóspedes para um passeio pela praia fluvial. Após o jantar, ele não pensou duas vezes quando viu a luz prateada da Lua Cheia cobrir de fogo fátuo as marolas das mansas águas do Rio Guaporé. Chamou um dos valetes do hotel e pediu que ele amarrasse uma corda comprida a uma canoa leve, de modo que ele pudesse navegar bem para o meio do remanso da enseada com segurança. Queria privacidade para ler algum livro ou mesmo assistir a um filme no “tablet”. O empregado do hotel estranhou o pedido inusitado do hóspede, mas, acostumado com as excentricidades dos clientes “vips”, atendeu ao desejo do bacana com um aceno cortês.

O caríssimo hotel temático, “Brisas do Guaporé”, diante das insistentes reclamações dos hóspedes “VIPs”, instalou antenas “Wi-Fi” ao longo da margem do rio em frente ao hotel para atender aos tecnófilos que, mesmo de férias, não conseguiam desconectar-se dos escritórios e grupos de contatos virtuais.

Após acomodar-se no fundo da canoinha, ele conectou o “tablete” e “zapeou” pelo “WatZap”, “Facebook”, “Instagran”, canais de notícias e por fim, consultou os e-mails. Atualizado com as mídias, ele clicou no ícone do leitor de “ePubs” e abriu o e-book “O Rei de Amarelo” na página sessenta e seis.

A noite agradável e a temperatura tépida, convidavam ao relax das férias. A canoinha embalada pelas leves marolas da enseada e no sobe e desce cadenciado das ondas, quando batia o casco nas marolas, fazia suaves “tchap-tchaps” marulhados acompanhando os grilos que cantavam ao longe.

De súbito, uma nuvem de pirilampos faiscando suas lanterninhas luminescentes envolveu a pequena embarcação. A canoinha, o rio, o hotel e toda a área ao redor desapareceram em meio ao clarão verde-esmeralda produzido pelos vagalumes. A claridade neon dos pirilampos durou o tempo do “flash” de uma máquina de fotografia. Lucas sentiu a pele pinicar com se uma levíssima corrente elétrica percorresse seu corpo e piscou encandeado. As pupilas dilatadas abriram e fecharam a íris com frenesi, inundadas pelo mar de bioluminescência.

Neste momento, Lucas sentiu que flutuava e que um vórtice o sugava para um portal azul neon em meio a um turbilhão.

Tudo apagou e ele desmaiou.
-o-o-o-

Quando retornou à consciência, o Córtex Visual de Lucas ainda retinha a informação do “flash” azul neon dos pirilampos no subconsciente. Ainda meio tonto, e vendo através de uma névoa difusa, a visão de Lucas demorou a se adaptar à luminosidade natural da noite. Depois de um tempo de adaptação, e quando finalmente, seus olhos conseguiram ver alguma coisa, uma cena inusitada na margem oposta à do Hotel chamou a atenção do turista incidental.

Um grupo numeroso de nativos, liderados por uma jovem de tez alvíssima e cabelos longos tão negros que ao receberem a luz fria da Lua, davam a impressão de, ora emitirem reflexos verdes esmeralda, ora reflexos prateados. Essa jovem, de extrema beleza e negra cabeleira, trazia a cabeça ornamentada com uma coroa de flores brancas   ‘aquáticas e andava com o porte de uma Sacerdotisa. Na verdade, ela era uma Sacerdotisa e fazia-se acompanhar por dois rapazes -  provavelmente, nativos também -, um deles, branco; o outro, negríssimo; de cujos olhos parecia reluzir lampejos de luzes faiscantes. Ambos olhavam embevecidos para a bela nativa.

A Sacerdotisa desfilava com extraordinária altivez no tablado daquele teatro primitivo formado pela praia fluvial, tendo como coxia, a floresta circundante. E como luz de picadeiro, a luz prateada da Lua Cheia.

Da enseada de onde a canoinha balouçava ao ritmo das marolas, o turista, esquecido do notebook e dos demais aparelhos eletrônicos, esquecido até do lugar de onde estava, hipnotizado pelo grupo que caminhava pela praia, não movia um músculo sequer.
Saindo das matas que circundavam a praia fluvial, outro grupo de nativos tocando diversos instrumentos de percussão, sopros, chocalhos, maracás e pandeiros, caminhava em direção à jovem de cabelos negros e seus acompanhantes. Sempre tocando e dançando ao ritmo cadenciado e envolvente dos instrumentos primitivos; os músicos se espraiaram pela areia e, lado a lado, fizeram um círculo em volta do grupo da jovem que envolvida pelos baticuns ritmados, meneava os quadris lentamente, em movimentos lânguidos e sensuais, sempre acompanhada pelos dois robustos nativos. Os demais membros do grupo da jovem, seguindo os meneios lascivos da dançarina, à medida que os sons dos tambores iam ficando mais baixos, quase inaudíveis, acompanhando a jovem, iam fazendo movimentos cada vez mais lentos, dando a impressão que se moviam em câmera lenta.

Do meio da enseada, o turista apurava os ouvidos tentando ouvir os tambores tocando em baixa vibração. E para emoldurar a estranha cena, alguns fiapos de nuvens que momentaneamente encobriam a luz prateada da Lua Cheia, ao sombrear a cena, davam contornos fantasmagóricos aos nativos que tocavam e dançavam nas brancas areias da praia. Com a curiosidade aguçada até o último grau, o intruso desamarrou a corda que prendia a canoinha e vagarosamente - procurando fazer o mínimo de ruído -, remou em direção à pequena praia. Enquanto ia remando, nuvens mais densas obscureceram a enseada e a praia. Praticamente às cegas, guiado apenas pelo lusco-fusco das luzes do Hotel nas marolas, o turista deixou-se levar pela mansa correnteza do rio. Subitamente, a luz prateada da Lua Cheia inundou a enseada e a praia, ao mesmo tempo em que os tambores rufaram mais alto e os chocalhos e maracás matraquearam em uníssono numa aparente cacofonia cadenciada.

A correnteza havia levado a canoinha para uma área bem abaixo da pequena praia, e o passageiro, com muito esforço, teve que subir o barranco em meio de galhadas e balseiros que atravancavam a margem do rio. Do barranco, ele seguiu por um carreador6 em direção à praia. Na trilha, munido do celular de última geração e de uma máquina fotográfica digital ultramoderna, ele acionou a câmera no modo filmagem e caminhou apressado em direção à praia.

Por detrás das moitas de Tamba-tajá7, fetos de palmeiras e arbustos, o improvisado “voyeur” ficou filmando o estranho festival de dança.

Na praia, a jovem e seus acompanhantes dançavam com meneios cada vez mais rápidos ao ritmo frenético dos tambores. O “voyeur” repreendeu-se intimamente pensando - “Cara! Como eu sou otário... Como é que me aparece uma oportunidade de ouro para fazer uma “selfie” ‘manêra’ de tudo o que está acontecendo e eu marcando bobeira aqui, meu!” – imediatamente o turista intrometido pausou a filmagem e configurou a câmera do celular para o modo noturno. Filmou mais alguns segundos, verificou o resultado e satisfeito com o que viu, continuou a sua indiscrição... Desta vez porém, o intruso configurou também a máquina fotográfica digital no modo filme e para a opção noturno e a amarrou em um galho direcionada para a prainha, filmando toda a sua ação. Depois, caminhou com muito cuidado em direção aos dançarinos enquanto imaginava as centenas, talvez milhares de “likes” que a publicação dos filmes não dariam no “facebook” e no “youtube”.

A jovem dançarina revoluteava pela praia com movimentos cada vez mais rápidos e sensuais. E à medida que a jovem requebrava os quadris com frenesi e afagava os próprios seios, pausadamente, ela e seus acompanhantes iam tirando peças de roupa. Em pouco tempo, todos estavam nus e com a luz prateada da Lua Cheia resplandecendo em seus corpos frêmitos e suados. A cena da jovem e seus acompanhantes, despidos, em movimentos rápidos e fingindo acariciarem-se voluptuosamente, excitou o cineasta clandestino. Sem pensar, ele se aproximou do palco inusitado para uma melhor tomada de cena. Nesse momento, uma das dançarinas que revoluteava em frente ao “voyeur”, o viu e estacou os movimentos com um grito agudo.

O balé primitivista parou, os tambores silenciaram, as flautas emudeceram e a jovem que liderava a dança imobilizou-se, quieta, estática. A Lua Cheia, irônica, afastou todas a nuvens que obliteravam os seus raios de luz e, zombeteira, lançou um facho de luz prateada, claríssimo como um holofote sobre o intruso. Os dançarinos e os músicos, em uníssono, viraram-se para o penetra e o encararam com um misto de hostilidade e surpresa.

A imobilidade dos músicos e dançarinos durou apenas uma fração de segundo. Num átimo, ele se viu cercado pela trupe de dançarinos liderados por dois nativos espadaúdos que o ergueram pelos braços e o levaram suspenso até a areia da praia, onde ficaram segurando-o com firmeza diante da dançarina de longos e brilhantes cabelos negros. Mesmo a despeito do terror crescente que o acometia, o intruso não deixou de perceber que os cabelos da jovem dançarina - agora que ele a olhava de perto, sob a luz intensa da Lua -, emitia fulgores de reflexos esverdeados, e esse detalhe, o intrigava mais que o terror que lhe arrepiava os cabelos da nuca.

A jovem dançarina de cabelos negríssimos com um leve meneio de cabeça sinalizou aos dois acólitos que soltassem o intruso. Eles então o jogaram abruptamente aos seus pés.

-Quem é você? O que você faz aqui? De onde você veio? – indagou a jovem com a autoridade de quem estava acostumada a ser obedecida.

Encabulado pela forma sorrateira de como havia se aproximado do grupo e, temendo até pela sua segurança, talvez a própria vida... Afinal, ele estava em uma praia fluvial deserta, à noite e nos confins da Amazônia, cercado por um grupo de estranhos liderados por uma moça, “linda de morrer” e dois nativos musculosos com caras de poucos amigos e sem o menor pudor de ficarem pelados na frente uns dos outros e que, aparentemente, eles não davam a menor importância para o fato, vez que, ela também, estava praticamente pelada, tendo a nudez dos seios encoberta apenas pelos longos cabelos negros e brilhantes.

-Boa Noite! Desculpe, moça! É que eu estava ali – ele apontou vagamente o lugar -, perto da outra margem, em frente ao Hotel, quando eu vi o grupo de vocês caminhando pela praia e fiquei curioso. - percebendo que o grupo apenas o olhava, intrigado e escutando-o sem maiores ameaças, ele continuou - Depois, eu os vi iniciarem uma dança que me pareceu folclórica, como é costume nesta região, então eu me aproximei meio escondido para não atrapalhar vocês. Desculpe, se fui rude com você e seus amigos quando fiquei filmando sem autorização. – e encarando os dois galalaus musculosos e os demais membros do grupo, comentou à guisa de cumprimento – Foi mal aí, moçada! De qualquer forma, desculpem aí! Valeu?

A jovem após ouvir as primeiras explicações do intruso, não se dando por satisfeita, indagou novamente:

-Quem é você? De onde você veio? Não era para você estar aqui!

O intruso olhou em volta e percebeu que diante das perguntas da jovem, o cerco estreitou-se um pouco mais. Os membros do grupo estavam ficando cada vez mais iracundos.

Tentando ganhar tempo e sem entender o motivo da crescente hostilidade, o intruso gaguejou algumas respostas:

-Como de onde eu vim? É claro que eu vim do hotel... Ali da outra margem! Estou hospedado lá... Aliás, cheguei hoje! Está certo que eu não deveria estar aqui... Neste ponto você têm toda a razão! Eu não tinha nada que interromper a dança, cerimônia ou qualquer outra coisa que vocês estivessem fazendo... Mas, até onde eu sei, essa área é pública... Pelo menos não tem e nem vi nenhuma placa indicando que estou em área particular, restrita.

A jovem interlocutora ignorou as explicações do intruso, deu-lhe as costas e caminhou de volta para o centro da prainha onde a fogueira que os iluminava ainda ardia com renomado vigor depois que os dançarinos a alimentaram com vários galhos secos.  A jovem acompanhada por seus acólitos que, indiferentes à carga que arrastavam, pararam à sua volta esperando ordens para dar um destino ao intruso. Com um aceno da cabeça, a jovem sinalizou para os dois nativos que a ladeavam para levarem o visitante inesperado até um cepo fincado perto da fogueira e o deixassem sentado e amarrado ao madeiro à espera do final da cerimônia bruscamente interrompida. O intruso, inconsequente, e a despeito de seguir com os pés sendo arrastados pela areia da praia, deliciou-se com a visão das nádegas arrebitadas que iam rebolando à sua frente enquanto pensava: “a gata pode até ser mal-humorada prá caramba, mas tem a bunda mais linda do mundo... Bunda de uma deusa!

Amarrado ao madeiro, Lucas sentiu os pulsos formigarem devido a pressão das enviras8 que o amarravam. Apesar de sentir alguma dor, o turista intrometido ficou apreciando as evoluções da dançarina que se fazia acompanhar pelos demais em seus requebros sinuosos e francamente sensuais. Sempre meneando os quadris e fremindo os seis túrgidos, a jovem de cabelos negríssimos, seguida da trupe de dançarinos, deu várias voltas ao redor da fogueira, depois parou em frente ao prisioneiro e abriu os braços esticando-os horizontalmente.

De imediato, duas caboclas velhas, vestindo apenas saias de ramas, colocaram em suas mãos, um cuietê9 e uma cintilante faca de obsidiana que soltou fagulhas prateadas quando os raios da Lua Cheia incidiram sobre ela.

Lucas vendo a cena da entrega dos estranhos objetos para a jovem, sentiu um gélido arrepio de medo subir-lhe do cóccix até a nuca. Gotas de suor frio lhe exsudaram os poros da testa. Engoliu em seco e sentiu um gosto amargo subir-lhe pelo esôfago. Resfolegou com dificuldade e pensou: “Agora sim, eu estou fodido e mal pago!

A jovem de cabelos negros, sempre dançando com o cuietê e a faca de obsidiana nas mãos, deu várias voltas ao redor da fogueira e do madeiro onde Lucas estava manietado. À medida em que a sacerdotisa dançava em derredor do poste fincado na areia, o baticum dos tambores e atabaques acompanhados do sonido das flautas e batidas dos pandeiros aumentava em volume e rapidez. A dançarina e seus acólitos, dançando freneticamente, entraram em uma espécie de transe, todos revolteando em torno de si mesmos, enquanto, sincronizados, mantinham a evolução do círculo em volta do madeiro onde Lucas estava amarrado. Sem aviso prévio, os tambores, os atabaques, as flautas e os pandeiros emudeceram. Porém, a sacerdotisa e seus seguidores continuaram dançando como se ainda ouvissem os sons da orquestra primitiva.

Com os instrumentos emudecidos, a praia e a floresta mergulharam em um silêncio lúgubre. A Sacerdotisa meneou a mão que segurava a faca de obsidiana por sobre a cabeça e, imediatamente, os dançarinos estacaram. Ficaram com os braços abertos e a cabeça caída sobre o peito. A moça de cabelos negros porém, em transe, continuou dançando como se ainda ouvisse os instrumentos que orquestravam a estranha cerimônia nas fraldas da floresta.


Enquanto a Sacerdotisa, como se ouvisse uma música oculta, continuava dançando languidamente, a nuvem de pirilampos, sempre pulsando, saiu da floresta e envolveu a nativa. De onde estava, Lucas percebeu que a Sacerdotisa por fugazes instantes, diminuiu os movimentos dos quadris e balançou a cabeça para a frente e para trás, como se fizesse uma assentimento. Não soube precisar o que era, apenas estranhou o fato. Tudo se passou tão rapidamente e em meio a névoa causada pela nuvem de vagalumes, que Lucas achou que por um motivo qualquer, a dançarina, talvez por eventual cansaço, desse uma pausa imperceptível. No entanto, após esse breve interregno, os vagalumes retornaram à floresta onde ficaram pulsando e piscando freneticamente. A Sacerdotisa continuou na sua dança silenciosa.

A jovem Sacerdotisa, sempre dançando e ondulando lascivamente os quadris, os seios túrgidos fremindo, ficou por alguns instantes em frente ao prisioneiro, olhando-o diretamente nos olhos enquanto a faca de obsidiana cintilava rente a garganta de Lucas.

Uma araramboia10 seduzindo o bem-te-vi.

Depois, a Sacerdotisa deu mais alguns passos e parou ao lado da fogueira, pousou o cuietê na areia, pegou um iaçá11 que estava emborcado dentro de um círculo ritualístico desenhado na areia, o levantou acima da cabeça e, zás!, decepou a cabeça do quelônio com a faca de obsidiana.

Horrorizado, Lucas observou a Sacerdotisa elevar o tracajá acima de sua cabeça e deixar-se banhar pelo sangue que escorreu em abundância. Com o sangue do quelônio escorrendo pela face e pelos bicos dos seios intumescidos, a sacerdotisa abaixou-se, pegou o cuietê, elevou-o acima da cabeça e começou a entoar um cântico lamentoso em um dialeto desconhecido, primitivo. Após o que, abaixou-o e o estendeu à sua frente, na altura dos seios. Imediatamente, uma das velhas que tinha lhe entregado o cuietê e a faca de obsidiana, aproximou-se portando uma bilha12 de barro vermelho e derramou uma beberagem de coloração ocre em meio a várias folhas verdes e pedaços amarronzados de liana. Dentre as estranhas palavras que a jovem proferia, Lucas conseguiu distinguir uma que era repetida várias vezes durante o cântico que mais parecia um mantra xamânico. Ayahuasca13!

Consciente de que a sua situação, amarrado naquela prainha, era mais que periclitante, Lucas caiu na real. Um medo ancestral, medo do desconhecido, somado ao temor da morte iminente foi tomando conta dos pensamentos de Lucas com reverberações no seu corpo, irremediavelmente invadido por tremores incontroláveis.

A coisa estava ficando séria!” -  pensou Lucas – “Aquilo não era brincadeira e nem podia ser folclore, teatro... Era real! Real, e parecia extremamente perigoso.”

Cara! Me fodi...!!! Dessa vez, me fodi todinho!” – Lucas pensou novamente em desespero.

Indiferente à aparência desolada do intruso amarrado ao madeiro, a Sacerdotisa, sempre com a faca de obsidiana em uma das mãos; com a outra, levantou o cuietê contendo a estranha beberagem e, após vários gestos cabalísticos com o recipiente direcionado, ora para o Rio Guaporé, ora para a Lua Cheia, e por fim, para a floresta que, de uma hora para outra, estava pontilhada de pequenos pontos de luz esverdeada produzida por miríades de pirilampos que esvoaçavam por entre as lianas, samambaias, ramas, tajás e fetos de palmeiras que encortinavam a borda da floresta.

De súbito, os tambores, atabaques, flautas e pandeiros retornaram à sinfonia primitiva fazendo as aves, repteis e animais noturnos da floresta emitirem pios, silvos, gritos e urros que ecoaram reverberando pelas águas dos rios, lagos e igarapés da Bacia do Guaporé até os recantos mais longínquos da imensa Floresta Amazônica.

Após os gestos rituais com o cuietê, a Sacerdotisa, agora meneando o corpo ao ritmo dos tambores, postou-se frente ao prisioneiro, ajoelhou-se e levou o cuietê até a boca para beber um grande gole da bebida cerimonial. Depois de beber e ficar alguns segundos contemplando a Lua Cheia, a jovem elevou o cuietê acima da cabeça, abaixou-o novamente até a altura dos seios e o apontou para o Rio Guaporé, para a fogueira, para a Lua Cheia, para a floresta e, desta vez, encostou a borda do recipiente na boca de Lucas instando-o a beber o estranho líquido.

Com relutância, Lucas tomou um pequeno gole e sentiu o gosto travoso da bebida... Um gosto amargo de suco de laranja deixado fora da geladeira por horas. Sem perceber, Lucas fechou hermeticamente a boca. Não queria mais provar daquela estranha bebida.

A Sacerdotisa não deu a menor importância para a recusa instintiva do prisioneiro. Com a faca de obsidiana encostada na garganta de Lucas, a nativa, com a ponta do queixo, instigou-o a abrir novamente a boca.

Sem outra alternativa, Lucas bebeu todo o conteúdo do cuietê. Depois que Lucas tomou a bebida ritualística, a Sacerdotisa afastou a faca de obsidiana da garganta dele, e, empunhando-a com a lâmina para cima, caminhou para as costas do prisioneiro e com um golpe firme cortou as embiras que prendiam seus pulsos ao madeiro. Receoso, Lucas preferiu continuar sentado na areia e esperar até onde iria aquela pantomina surreal.

Lucas ainda permaneceu algum tempo sentado, talvez dez minutos... Vinte minutos ou meia hora... Não soube precisar o tempo... O que ele percebia é que, se por um lado estava aliviado em razão das mãos livres, por outro lado, preocupado, Lucas sentia o travor amargo da bebida nas glândulas gustativas enquanto um leve torpor tomava conta do seu corpo e sua mente se obliterava fazendo as silhuetas dos dançarinos e da jovem Sacerdotisa assumirem contornos fantasmagóricos. Seus dedos começaram a alongar-se, tomando forma de garras. Sentiu-se voando. Pairando por cima do grupo de dançarinos.

De repente, não estava mais voando, estava no fundo do rio. Era um boto e nadava veloz...

Não! Não era mais um boto, era um jacaré...

Não! Não era mais um jacaré, era uma coruja...

Não! Não era mais uma coruja, era um Basilisco14 com enormes olhos de fulgurante vermelho que resfolegava no meio do rio fazendo banzeiros que inundavam a prainha... E do rio, com seus olhos de fogo alumiando a praia e as matas, ele via os dançarinos se destituírem da forma humana e assumirem corpos de animais.

Num instante, o caboclo que tocava atabaque não era mais humano, era um Jaguar, uma onça pintada.

Os tocadores de tambor não eram mais homens, caboclos... Era porcos do mato. Javalis de pequeno porte! Caititus!

As velhas de saias de folhas não eram mais humanas... Caboclas. Diante dos olhos de fogo do inusitado Basilisco, os braços das velhas se transformaram em enormes asas... As faces das anciãs foram ficando cobertas de penas, os narizes transmutaram-se em bicos, os pés em garras e as velhas se transformaram em grandes aves de rapina que alçaram voo soltando pios lúgubres... Elas agora eram Harpias15.

As dançarinas viraram aves de diversos espécimes.

Os guarda-costas da Sacerdotisa, o branco e o negro, entraram no rio e se transformaram em golfinhos... Espera aí! – pensou – Golfinhos em rios??? Os caras se transformaram em botos... Dois botos! O cara branco, virou um boto vermelho. E o cara negro, virou um boto tucuxi, preto. – e concluiu – Não estou entendendo mais nada!

Contudo, os fatos extraordinários da noite ainda não tinham acabado. A Sacerdotisa, para seu assombro, transformou-se em uma Melusina16 que começou a serpentear na praia abrindo grandes sulcos na areia. Depois de serpentear, silvar e bufar por algum tempo, a Melusina olhou para o Lucas... “Espera aí...!!!” – pensou o Lucas – “Eu não sou mais o Lucas! Eu agora sou um Basilisco, posso enfrentar a Melusina de igual para igual...

No meio do Rio Guaporé, iluminados pela luz prateada da Lua Cheia, a Melusina e o Basilisco enredaram-se um ao outro, cada um abocanhando a calda do oponente, como se fossem um Ouroboros17. A Melusina soltando vapores densos de sua bocarra. E o Basilisco, por sua vez, soltando labaredas rubras que alumiavam os dois contentores e as águas onde se esbatiam. Os habitantes noturnos da floresta faziam alaridos mil numa cacofonia de sons aterrorizantes.

Num minuto, o Basilisco e a Melusina não estavam mais se enredando no meio rio, brigando. Estavam na areia da praia se amando...

Amando? Transando, mesmo? Uéééeee!!!” – pensou muito admirado, o Lucas.

Então ele percebeu que não era mais um ser mitológico que soltava fogo pelas fossas nasais... Nem ele e nem a estranha e bela moça nativa... Ele voltara a ser um simples humano, e ela, a altiva Sacerdotisa. Ela não era mais um animal sobrenatural, era apenas uma mulher, e eles estavam fazendo amor loucamente, arfantes e suarentos. A Sacerdotisa agora era uma ninfomaníaca que o cavalgava com frenesi, e, com as unhas afiadas, abria sulcos sangrentos em seu peito.

Extremamente surpreso, Lucas, com esforço, olhou em volta a procura dos músicos e dançarinos... “Ninguém em volta!” – percebeu – “Estamos sós! Quer dizer...” – retificou-se. Em um ponto mais afastado da prainha, os dois caras espadaúdos, acólitos da Sacerdotisa, os olhavam impassíveis.

Beleza!” – pensou – “Desde que não viessem atrapalhar a transa, podiam olhar o tempo que quisessem.”

Lucas nem percebeu as horas passarem. Não percebeu nem em que hora dormiu. Acordou com o Sol queimando a sua face, vomitando e sentindo vertigens. As têmporas latejando e a base do crânio explodindo de dor.

Estava nu!

Levantou-se cambaleando e sentindo náuseas insuportáveis. Vomitou sobre os pés e os sacudiu, enojado. Limpou parte da areia do corpo e, distraidamente, olhou de novo para os pés cobertos por uma meleca amarelo esverdeada e nova onda de vômito o acometeu. Sentiu o gosto desagradável da bílis no céu da boca e saiu andando à procura de suas roupas.

A praia estava deserta e ele não viu vestígios das roupas, do par de tênis ou dos equipamentos eletrônicos.

O único ser vivo que viu foi um pequeno maçarico18 ciscando na areia rente à borda da água do rio onde vários caimans19 se aqueciam ao sol olhando-o com os seus olhos mortiços, inexpressíveis.

Ainda desorientado, Lucas andou a esmo pela praia indo de um lado para o outro até que, em uma pequena enseada, próximo a embocadura de um igarapé, em meio ao início de um chavascal20, vislumbrou rastros.

Aproximou-se.

As lembranças vinham como flashes, e, num desses instantâneos, Lucas lembrou-se do hotel na outra margem e percebeu que ainda estava nu. -Nuzinho da silva! – murmurou - O rosto corou de vergonha. “E se o vissem ali? Pelado? Que explicação daria às pessoas?” – pensou.

Imediatamente procurou algumas ramas de samambaia e improvisou uma vestimenta.

Sentiu-se ridículo, fantasiado de Adão.

Sacudiu os ombros porém, era o melhor que podia fazer no momento.

Sentindo-se mais apresentável, olhou novamente para a outra margem e achou estranho que as pessoas que andavam para lá e para cá nas alamedas do hotel e pelas calçadas não o vissem fantasiado de Adão na outra margem do rio. Tampouco os hospedes que navegavam em pequenas canoas à frente do ancoradouro pareciam não perceber a sua presença. Intrigado, levantou os braços entorpecidos, porém, logo os abaixou. Sentia-se muito fraco para ficar pulando e agitando os braços para chamar a atenção de quem quer que seja.

Debalde, sentou-se na areia quente. Tentaria recuperar as forças e depois faria nova tentativa de contato com os hospedes. A vertigem e as dores de cabeça continuavam... Insuportáveis! O estômago engulhava...

-Puta que pariu! Será que estão todos cegos? – gritou irritado. Depois, pensou – “Será que eu fiquei tão chapado assim? Não pode ser! Afinal, eu estou sonhando que estou acordado, ou estou cordado e chapado pensando que estou sonhando...??? A porra do hotel está ali! As pessoas estão ali!!! – e em voz alta – Que merda é essa que está acontecendo?

Estupefato com a estranha indiferença dos hospedes do hotel, Lucas coçou a nuca e ficou olhando, ora ao longo da prainha, ora para a outra margem do rio enquanto caminhava em direção ao rastro no início do chavascal. No meio do caminho, Lucas lembrou da canoinha em que tinha navegado até a pequena praia na noite anterior. Imediatamente olhou por toda a extensão da prainha e não viu nem sombra da pequena embarcação.

-Puta-que-os-paríÔ...! – gritou furioso.

Desistiu, por enquanto, de procura-la. Achou melhor seguir os rastros... “Quem sabe, não descobriria alguma coisa para desvendar aquele mistério que a cada minuto que passava, tornava-se mais intrigante.” – pensou - e depois falou olhando para o solitário maçarico:

-Cara! Eu trocaria meu “iPhone 6” por um simples copo de água... - e gritando para o Céu azul anil sem uma nesga só de nuvem -  Que sede, meu?!

Ainda intrigado com tantos acontecimentos extraordinários e andando em direção ao chavascal, Lucas lembrou da noite anterior, do início da noite, quando pediu para o “valete” do hotel providenciar a canoinha para ele dar uma relaxada no meio do rio. Lembrou também que quando falou para o “valete” que queria relaxar, o cara ficou olhando de um lado para o outro como se desconfiasse até da própria sombra. Porém, depois de alguma hesitação, falou discretamente... Meio sussurrando!

-Doutor Lucas, se o senhor quiser mesmo relaxar... Mas, relaxar meeeesmo! Eu tenho uns “bagulhos” aqui que vai deixar o senhor bem “zen”. – então o cara meteu a mão do bolso traseiro da calça do uniforme e, após pensar um pouco, retirou uma cigarreira de metal prateado contendo vários “jererês21” de tamanhos diversos. Escolheu os dois maiores e os entregou para ele. Depois, falou o preço, pediu sigilo e voltou para a recepção do hotel.

Lembrando desse fato, Lucas, enfurecido consigo mesmo, continuou andando e falando alto:

-Caceta! Era para ter fumado só um baseado, cara! Fumei dois e fiquei “chapado” demais... Resultado: vim parar aqui... Pelado! Nu, e com a mão no bolso...!!! OTÁÁÁRIO!

Ainda atormentado pelas náuseas, vertigens e com as têmporas latejando, Lucas parou em frente a embocadura do igarapé e olhou para o chavascal observando atentamente os rastros de pessoas misturado com vários rastros de animais. Após alguns minutos examinando as pegadas, desistiu de identificar os animais que haviam passado por ali. Conseguiu identificar apenas os rastros de seres humanos.

Três tipos de pegadas.

Duas, eram grandes e pareciam ser de homens.

Uma, pequena, parecia ser de mulher...

Mulher, meu parceiro! – uma centelha brilhou no cérebro enevoado de Lucas.
Cara! Mulher, mulher, mulher...!!! Mulher, cara? – o subconsciente jogou na mente embotada de Lucas a lembrança da jovem de cabelos negros, a Sacerdotisa. - A gatona da noite passada, cara...!!! A gata tarada da noite passada que me deixou extenuado com aquela transa muito louca... E a bebida que ela me deu, cara? Parecia chá de papoula, meu? Como era mesmo o nome da bebida? (...!?!?) Tenho certeza de que já li aquele nome no Google... Ruasca? Uasca? Não! Não era nada disso... – um clarão se abriu na cortina que obliterava a consciência de Lucas - Era Aiauasca! Não, maluco! A grafia era diferente... Isso mesmo, cara! AYAHUASCA! Viajei demaaais...!!! Caraca, meu! A erva que eu fumei era uma ‘AK pepeu’ potencializada, ou então, foi embebida em Óleo de Haxixe22, meu! Que loucura, cara?” – em meio a um turbilhão de perguntas, Lucas especulava pensando na noite alucinada que havia passado.

Uma torrente de dor partiu das têmporas de Lucas e inundou a base do crânio fazendo-o fechar e abrir os olhos várias vezes. E em meio a centelhas de luzes multicoloridas, ele soltou um gritinho agudo de dor. – Ái!

As horas passavam, o calor aumentava e o Sol se aproximava do zênite. Suando, sentindo vertigens e com os ombros ardendo sob o Sol incremente, Lucas, parado em frente ao chavascal, lutava para vencer as tonteiras e as ânsias de vômito. Piscando várias vezes para afastar as luzes multicoloridas que dançavam frente aos seus olhos, Lucas tentava fixar a atenção nas pegadas que seguiam para dentro da mata.

Concluiu que seria impossível adentrar pela floresta. Pelo menos, do jeito em que se encontrava. Descalço, pelado, vomitando, sentindo vertigens, sedento e faminto.

Não!” – pensou enfaticamente. “Seria loucura entrar na mata no estado em que me encontro” – analisou.

Lucas desistiu de seguir as pegadas, e, com muito cuidado, aproximou-se da água. Um olho nos caimans e outro numa possível rota de fuga. Ficou de quatro e lavou o rosto... Olhou de soslaio para os jacarés... Depois, jogou água sobre a cabeça e, por fim, preferiu afundar a cabeça na água fria e com a cabeça submersa, sorveu sofregamente. Bebeu até sufocar.

Depois de saciar a sede abrasadora, Lucas sentiu-se melhor. As vertigens pararam, mas, o excesso de água no estômago vazio cobrou seu preço. Vomitou tudo o que havia ingerido.

Sempre de olho nos caimans, Lucas deu alguns passos rio acima e bebeu novamente. Dessa vez, mais devagar e em pouca quantidade. Ficou de pé, sacudiu levemente a cabeça e não sentiu vertigem nenhuma. Sentindo-se melhor, Lucas olhou para a borda da mata e achou a sombra de uma árvore frondosa que espraiava seus galhos por sobre a prainha. Mais reconfortado, ele caminhou para debaixo dos galhos buscando abrigo. Juntou umas folhas secas para fazer uma espécie de tapete e sentou-se para analisar a sua situação.

Não era nada boa...!!!” – concluiu.

Com a bunda pinicando devido as espetadas das pontas dos gravetos e folhas, Lucas constatou que estava perdido em uma praia de rio no meio da selva. E, como se não bastasse, estava pelado, descalço, fraco, faminto e, a menos que conseguisse chamar a atenção dos hospedes ou dos empregados do hotel no outro lado do Rio, o jeito era esperar a passagem de algum barco ou pescador pela margem onde se encontrava, ou ao menos pelo meio do Rio. Porém, um pouco consternado, Lucas não pressentia a menor possibilidade da passagem de algum pescador ou qualquer outro caboclo ribeirinho por aquelas paragens.

Sem outra alternativa, ficou pulando e agitando os braços tentando chamar a atenção das pessoas que transitavam nas calçadas que margeavam o outro lado do Rio.

Inútil!

Irritado, percebeu que com o exercício involuntário, a fome abrasou o estômago. Sentiu uma pontada na barriga. Resistiu estoicamente à fome excruciante. Preferiu andar de volta ao lugar por onde desembarcou na praia e olhou em volta à procura do barquinho. Quem sabe, encontrando a canoinha, não localizaria o isqueiro e acenderia uma fogueira? Andou por todos os lados e não encontrou nada. Voltou para debaixo da árvore, sentou-se e nem ligou para os gravetos pinicando a bunda seca. Pelo menos ficaria na sombra.

A fome retorcendo as tripas... A cabeça dando voltas... Sentia náuseas.

Desesperançado, olhou para um lado e para o outro, e, por fim, ele olhou para cima e viu... Viu frutos.

-Carái! Aquilo ali é biribá! Eu estou debaixo de um biribazeiro23...!!! – Lucas gritou admirado.

Em seguida, olhou atentamente em volta. E no chão, ele viu vários frutos semidevorados pelos animais. Lucas não pensou duas vezes, pegou um pedaço de pau e jogou em um galho mais perto da areia mirando um grande biribá amarelo que estava pedindo para cair. Repetiu a operação várias vezes.

Lucas comeu os frutos devagar. Lembrava-se do contratempo que havia passado quando bebeu água além da conta para matar a sede. Com a fome saciada, Lucas sentiu um torpor e uma preguiça lânguida tomar conta do seu corpo cansado. Uma sonolência embriagadora foi deixando suas pálpebras pesadas e ele, sem perceber, adormeceu ali mesmo. Esquecido dos caimans, dos seus problemas, de onde estava e dos gravetos pinicando a bunda e as costa.

- o –

A impressão que Lucas teve foi que tinha adormecido havia poucos minutos. Porém, a brisa fresca que vinha do rio e o eco das vozes que ela trazia o despertou. O Sol tinha se posto e a prainha estava iluminada apenas pelo lusco-fusco do dia que findava, cedendo lugar para a noite que chegava rapidamente. Nem sinal da Lua Cheia que apenas insinuava sua luz prateada lá na curva do rio.

Lucas levantou-se, ajeitou a precária tanga de samambaias e sentiu-se ridículo novamente. Era um Adão com pequenas marcas que pinicavam por todo o corpo.

Uma carreira de formiguinhas vermelhas – conhecidas pelos ribeirinhos como “formigas-de-fogo” - que estavam recolhendo pequenos cristais de sal do seu escroto, exsudados pela sudorese, no momento em que resolvera levantar-se, acuadas pela pressão brusca dos testículos contra a base das coxas, resolveram revidar a afronta e fincaram com toda a força, as agudas tenazes na pele mais delicada do órgão genital dos humanos, a região entre o ânus e o escroto, ao que, simultaneamente, expeliram dezenas de gotículas de ácido metanoico - o popular ácido fórmico -, na pele já irritadíssima do involuntário agressor. Um rio de lavas incandescentes inundou a região anal e genital de Lucas.

No limiar da loucura, Lucas deu vários saltos com as pernas abertas tentando mitigar o ardume abrasador que o atormentava. Sem outra alternativa, o Adão improvisado, esqueceu-se dos caimans, possíveis piranhas e até dos temíveis, míticos e famosos candirus24, e correu para o rio onde ficou por um longo tempo sentado no fundo arenoso soltando flatos e urinando devido a ardência infernal; enquanto esfregava as partes pudendas como se ali estivesse um vulcão em erupção.

Lucas ainda estava esfregando, com muito cuidado, a base dos testículos e a borda do ânus quando viu, no outro lado da prainha, caminhando em sua direção, a jovem de cabelos negríssimos, sempre acompanhada pelos caras espadaúdos, um negro e um branco. Os cabelos molhados dos três e a fina camada de areia que cobria seus pés indicavam que eles haviam saído do rio fazia pouco tempo. Os caboclos recolhiam paus secos e gravetos espalhados pela praia. A jovem caminhava altiva e serena à frente. Uma deusa. Os três, como sempre, pelados.

Curioso, Lucas levantou-se esquecido de que estava pelado também. No afã de mitigar as labaredas produzidas pelas miúdas formigas vermelhas, ele perdera a frágil tanga de samambaia. Titubeou um pouco, porém concluiu que, pelados por pelados, que importância teria mais um nudista na praia. Decidido, caminhou ao encontro dos nativos que agora, no meio da prainha, preparavam um monte de lenha, talvez para fazer uma nova fogueira como na noite anterior. A deusa coordenava os trabalhos dos caboclos enquanto pegava algo de dentro de um cesto de vime, um jamaxi25. Quase sem surpresas, Lucas viu a linda nativa retirar de dentro do cesto, vários quelônios do mesmo espécime do que ela tinha decepado a cabeça na noite anterior.

Depois de deixar os açuãs emborcados na areia, a jovem examinou-os, medi-os, sopesou-os e, após algum tempo de exame minucioso, escolheu o mais gordo e o entregou para o caboclo negro para que ele o lavasse no rio e o esfregasse com ervas aromáticas que a jovem também havia retirado do jamaxi.

Lucas, parado alguns metros distante dos nativos, observava com um misto de curiosidade e surpresa os movimentos da jovem de cabelos negros. De pronto, imaginou que seria testemunha de um novo ritual, e, com sorte, talvez até como espectador convidado. Tudo dependeria da conversa que pretendia entabular com a Sacerdotisa.

Com muito tato, Lucas aproximou-se da nativa e, à guisa de cumprimento, falou:

-Oi! Tudo bem? Desculpe-me por ontem à noite... Acho que estava muito chapado e dormi sem nem perceber...

Sem aparentar a menor surpresa, a jovem Sacerdotisa o cumprimentou de volta com um leve aceno de cabeça.

Sentindo-se mais confiante, Lucas tentou se aproximar da jovem, mas os nativos espadaúdos se interpuseram entre os dois. Lucas estacou e tentou outra abordagem.

-Desculpem-me! Sou um desastrado mesmo... Depois de tudo o que aconteceu ontem à noite... A cerimônia... Aquela bebida... Eu já meio chapadão... – e olhando diretamente nos olhos da Sacerdotisa, Lucas, meio sem jeito, continuou – Nós dois juntos, sabe...??? Depois daquele pesadelo horrível...

Após um leve meneio de cabeça, os acólitos da Sacerdotisa recuaram e postando-se ao lado da jovem, aguardaram novas instruções de sua senhora que para surpresa de Lucas, pela primeira vez falou com ele com uma voz maviosa, delicada e embriagadora.

-Nunca houve pesadelo! Tudo o que aconteceu ontem a noite foi real.

Sentiu-se inebriado. “Essa mulher existe mesmo?” – pensou – “Meeeu! E eu transei com ela, cara!!!” – Com um esforço hercúleo, Lucas procurou sair do encanto em que se encontrava e indagou.

-Como real? Para mim, o único fato real de ontem à noite foi a nossa transa. Lucas respondeu com um leve sorriso cafajeste.

A jovem ergueu o queixo e assumiu um porte altivo. Mais majestosa do que nunca. Uma deusa. Uma leve brisa agitou-lhe os negríssimos cabelos e, com um olhar penetrante para o pobre “mortal” estático à sua frente, a Sacerdotisa falou com condescendência:

-Nunca houve a... Como é mesmo o nome? A “transa”, como você se refere... O que houve foi um acasalamento ritual.

Lucas insistiu:

-E as transformações, também foram reais? A minha transformação em Basilisco, também foi real?

Sempre calma e altiva, a Sacerdotisa condescendeu novamente:

-Nunca houve transformação em Basilisco, como você diz... Nem sei o que é isso! Você foi transformado em Boitatá26! Era assim que tinha que ser, e assim foi... Fazia parte do ritual!

Lucas não se convenceu:

-E você? E a sua transformação em Melusina? Foi real?

-Nunca ouvi falar nesse nome... Também não sei o que significa! De acordo com o ritual, você assumiria a forma de um Boitatá, e eu, de uma Boiúna27... Foi assim que aconteceu! Sempre foi assim. Desde tempos imemoriais!

Lucas insistiu – E as velhas que se transformaram em Harpias? E as dançarinas? Elas simplesmente assumiram o corpo de aves... E o tocador de atabaque? O cara virou onça... Jaguar... Sei lá o quê! E os tocadores de tambores? Viraram porcos, javalis... Ainda que pequenos... E os caras aí, do seu lado? Viraram botos... – com os olhos arregalados e sentindo um arrepio na nunca, Lucas ainda perguntou, quase um lamento – Tudo aquilo foi real? Não foi “nóia” minha, não?

-Harpias? Também não sei o que é! – a Sacerdotisa falou, respondendo a primeira das muitas perguntas do atônito Lucas, e depois, pacientemente, foi respondendo uma a uma a torrente de indagações dele.

-As velhas só voltaram a ser o que sempre foram... Corujas! Ou melhor, Matintas Perera28! E as outras, as dançarinas, deixaram a forma humana e voltaram a ser o que sempre foram... Garças, jaçanãs, juritis, ciganinhas, colhereiros e curicacas... Aves! Aves do rio! – com um aceno de mão, a Sacerdotisa convidou Lucas para segui-la em direção à margem do Guaporé, enquanto respondia as demais perguntas dele:

-Não sei o que é javali! Não tenho a menor ideia do que seja... Acho que você está se referindo aos tocadores de tambores. Pois bem! Como todos os outros, eles voltaram a assumir o corpo que sempre tiveram... Caititus! Porcos-do-mato! – apontando para rio, para completo assombro de Lucas, a jovem perguntou: -Os botos a quem você se referiu, são esses, aí?

Diante dos olhos arregalados de Lucas, dentro da água, os nativos que ladeavam a Sacerdotisa, se metamorfoseavam.

Os caboclos estavam deitados na areia, à beira da água, com as mãos se amalgamando à cintura, enquanto seus cotovelos, arqueados para fora assumiam contornos de nadadeiras. As espinhas dorsais dos nativos foram se projetando para fora, primeiro em uma espécie de corcunda, depois os calombos das corcundas foram afinando, afinando, até se transformarem em nadadeiras. Nadadeiras dorsais. As testas dos dois rapazes aumentaram de tamanho e viraram calombos protuberantes e as faces foram se alongando e afunilando até se transformarem em rostros29. Os olhos deslocaram-se para a têmporas e os ouvidos fundiram-se no alto da cabeça. E por último, os pés dos caboclos voltaram-se para fora e os calcanhares fundiram-se ao prolongamento do corpo. Completamente metamorfoseados em cetáceos, os acólitos da Sacerdotisa bufaram, emitiram sonidos e deram vários saltos acrobáticos ao longo da enseada em frente à prainha.

Lucas estarrecido, prendeu a respiração, olhou para os lados, sacudiu a cabeça e falou, extremamente admirado.

-Caráááálho! Não é possível! Será que eu ainda estou tão “chapado” assim???

Porém, as surpresas ainda não tinham acabado para Lucas. De repente, ele sentiu o toque suave dos dedos da Sacerdotisa. Como se saísse de um transe, Lucas virou-se para ela com um olhar inebriado. A jovem então, apontou para a outra margem do rio, em frente da prainha.

Lucas sentiu-se desfalecer de assombro. O hotel estava lá, todo iluminado. Os hóspedes em seus afazeres cotidianos. Inclusive, alguns sentados em volta de mesas, bebericavam latinhas de cervejas, tagarelavam e olhavam para o Rio, aparentemente sem ver as fogueiras acessas e movimentação dele, da Sacerdotisa e os saltos acrobáticos dos botos no meio do Rio. Para completar ainda mais o assombro de Lucas, vários hospedes bebericavam à beira da piscina; outros, gesticulando muito, falavam ao celular; outros ainda, simplesmente caminhavam pelo pátio do estacionamento em conversas triviais. Todos, sem exceção, pareciam não notar ou ver a agitação que transcorria na margem oposta do Rio Guaporé, ainda que, saindo do interior da floresta, vários rufares de tambores e atabaques que os músicos experimentavam espaçadamente.

-Que porra é essa? – gritou, sem perceber -  O que é que está acontecendo aqui? Eu passei todo o dia andando para cima e para baixo nesta praia, olhando para a outra margem tentando chamar a atenção daquelas pessoas, ou pelo menos fazer o mínimo contato e ninguém, veja bem!, ninguém na porra do hotel parece enxergar este lado da margem do Rio... E nós estamos aqui, e eles estão lá... Na boa! Olham para cá e não nos vêm... É como se nós fossemos invisíveis. Afinal de contas... Que porra é essa que está acontecendo??? – Lucas, indagou e avançou alguns passos em direção à jovem. O rosto de Lucas demonstrava um misto de assombro e fúria.

Como num passe de mágica, os nativos não eram mais os cetáceos que davam saltos acrobáticos na enseada do rio. Num piscar de olhos, eles estavam ali, ao lado da Sacerdotisa e encaravam Lucas com os olhos fuzilando de ódio, prontos para trucida-lo ao menor sinal da jovem de cabelos negros.

Pela primeira vez a Sacerdotisa, com olhar penetrante, enigmático, hipnotizante, dirigiu a palavra para Lucas citando o seu nome. A voz, como sempre, maviosa, sublime... O silvo da araramboia para o bem-te-vi.

-Lucas...!!! Lucas, é o seu nome, não é? É meio difícil para você entender, mas... – a Sacerdotisa foi interrompida por Lucas.

-Faz o seguinte... Por que você não tenta? Quem sabe, eu não seja tão idiota assim...

-Pois bem, Lucas! – condescendeu novamente, a Sacerdotisa – Antes de explicar o que está acontecendo, você precisa saber, exatamente, quem somos nós e onde você se encontra, para assim, ficar, ou tentar ficar preparado para o que lhe espera depois que a Lua Cheia estiver no alto e nós iniciarmos a cerimônia de exaltação. De antemão Lucas, hoje você vai reviver tudo o que você passou na noite anterior... Isto é, se você for capaz... O Escolhido certo!

Lucas, estupefato, e sem conseguir articular qualquer palavra ou frase, olhava para a jovem como se estivesse catatônico. Não conseguia acreditar no que estava ouvindo e apenas instou a jovem a continuar falando.

-Como é que é? O escolhido??? Como assim? – sobressaltou-se Lucas. Depois, achou melhor aguardar o resto da história da jovem – Sou todo ouvidos...

A Sacerdotisa voltou-se e caminhou para o meio da praia, em direção ao jamaxi, e, com um leve sinal com a mão direita, a jovem indicou para os guarda-costas e Lucas seguirem-na enquanto prosseguia a explanação:

-Escolhido, sim, Lucas! Não sei a razão, ainda... Mas você é um dos poucos brancos que assiste e participa da cerimônia. E o mais extraordinário, é o primeiro que consegue entrar em nosso mundo, consegue entrar nas terras de Urucumacuã30, a aldeia encantada do Vale do Guaporé, que é como denominam, hoje, as terras dos meus antepassados, os Maias.

A jovem foi novamente interrompida por Lucas. – Espera aí...! Os Maias??? Não era esse povo que costumava arrancar o coração de suas vítimas em sacrifício aos deuses deles??? Especificamente, o deus Jaguar?

-Era! – respondeu a jovem – Porém, essa prática foi abandonada pelos meus antepassados que ficaram aqui. Foi substituída pelo sacrifício da tartaruga açuã, afinal, ela tem as mesmas cores que o Jaguar, e também, como o Jaguar, é um animal muito belo e raro. Mas, Lucas, essa é uma história para outra hora. Por enquanto, Lucas, vamos nos ater à sua história. Na sua possível sobrevivência. – a Sacerdotisa foi novamente interrompida por Lucas.

-Espera aí... Espera aí! Tem uma coisa que você está esquecendo, meu amor! Se eu posso ver o hotel daqui, é lógico que eles também podem ver esta praia e, consequentemente, podem nos ver, também, ou pelo menos deveriam... Nénão?

-É aí que você se engana, Lucas! Eles nem sabem que sempre estivemos aqui... Eles apenas vêm a praia e as matas que a circundam, assim como você as enxergava antes de entrar em nosso mundo... Ou melhor, na aldeia encantada de Urucumacuã. – e fazendo um gesto teatral com o braço, a Sacerdotisa mostrou a floresta impenetrável que bordejava a prainha.

Continua...
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  1. Publicado em primeira mão neste "blog"... Em breve 0 texto completo será publicado em e-book no site "Recanto das Letras.

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