A Pedra da Yara - Parte 02



A Pedra da Yara


- PARTE 02 -

Nova surpresa para Lucas. Ele olhou para o lugar onde, antes, havia uma floresta impenetrável e ali não existia selva nenhuma. Havia sim, uma extraordinária aldeia, toda iluminada por fogueiras espalhadas pela área central e archotes acessos amarrados em postes que se enfileiravam ao longo da prainha. A sombra da floresta piscava com miríades de pontos de luz verde-esmeralda e verde limão produzidos por nuvens de pirilampos, os mesmos pirilampos que haviam envolvido a canoinha e que havia feito seu corpo pinicar quando ele estava em frente ao hotel na noite anterior. Esse caleidoscópio de luzes produzidas pelos vagalumes, alumiavam a mataria por detrás das malocas dispostas em semicírculo ao redor de uma pequena pirâmide nos moldes das encontradas nas representações dos reinos Maias.

Os pirilampos formavam uma cortina de luz verde neon por toda a floresta que pulsava ao ritmo das batidas aceleradas do coração de Lucas. Pelo menos, era essa a impressão que ele tinha com a respiração arfante.

A cortina de luz ondeava como se tivesse vida própria e as surpresas para Lucas não pararam por ali. Com os olhos arregalados de assombro, ele viu um pedaço da cortina de luz verde limão destacar-se, sair da floresta e flutuar, pulsando, na direção da Sacerdotisa, e aí, Lucas viu a jovem de cabelos negros ser engolfada pela luz pulsante dos pirilampos. A Sacerdotisa desapareceu por alguns segundos no clarão produzido pelos estranhos vagalumes. Quando a jovem ressurgiu, seu semblante não demonstrava mais a velada hostilidade e reservada distância que ela mantinha em relação a Lucas. A nuvem de pirilampos, sempre pulsando, pairou por alguns instantes sobre a jovem e depois flutuou novamente em direção à floresta e reintegrou-se à cortina de luz que continuava pulsando ao ritmo das batidas do coração de Lucas.

A jovem Sacerdotisa, voltou-se para Lucas, o olhou até com certa ternura e, inesperadamente, pegou com suavidade pegou-lhe a mão, e para seu total assombro, caminhou de mãos dadas com ele em direção à aldeia que resplandecia no meio da floresta emoldurada pelos archotes, fogueiras e a cortina de pirilampos que continuava pulsando e esvoaçando por entre as folhas e galhos das árvores.

-Lucas, você foi escolhido por eles. – com um gesto de cabeça, a jovem indicou a cortina de luz que alumiava com uma suave luz verde limão a floresta que os circundava - É a única explicação para o fenômeno da sua aparição e sobrevivência à cerimônia de ontem à noite. Já houve caso similar... – a Sacerdotisa foi novamente interrompida por Lucas.

-Espera aê!!! Não estou entendendo a mudança de atitude... Qual foi, gata???

-O que está feito, está feito! Se é assim que tem que ser... Assim será! Mesmo porque, muitos sucumbiram após o primeiro acasalamento.

Sempre segurando a mão de Lucas, a Sacerdotisa parou em frente à pequena pirâmide e, com um gesto de mão, chamou os dois nativos que aguardavam a uma reservada distância.

Quando os nativos se aproximaram, a jovem olhando fixamente nos olhos de Lucas se apresentou junto com os dois rapazes:

-Eu sou a Iara – a jovem abriu os braços como se estivesse apresentando o Rio e a Florestas -, filha destas águas e matas, e eles, são os meus filhos. – cerimoniosamente, a Iara apontou os caboclos espadaúdos – À minha direita, o moreno, chama-se Sotálio, e a esquerda, o branco, é o Inía. E o seu nome, qual é?

-Seus filhos? Como é que pode? Você tem quantos anos? Vinte? Vinte e cinco? – Lucas indagava incrédulo. Depois, ainda confuso, indagou: -Esses caras devem ter, no mínimo, dezoito ou vinte anos, cada um...!? Como é que pode...???

Por fim, Lucas achou melhor deixar para lá... Eram muitos mistérios, muitas indagações sem respostas... Estava tudo muito estranho... Então, o mais sensato era entrar no jogo e ver no que daria aquilo tudo. “Parceiro, entrou na lagoa? Então, coaxe com os sapos!” – pensou.

E já que ele estava no jogo, achou que o mais educado era se apresentar também para o estranho trio:

-O meu nome, como eu já lhe disse antes, é Lucas... Luquinha para os amigos. – ele se apresentou.

Lucas apertou as mãos dos dois caboclos e beijou a moça no rosto. Ficaram ali, os quatro, sem saber o que dizer um para outro. Quebrando o silêncio incômodo, Iara falou para o Lucas:

-Temos que voltar para a praia e reavivar as fogueiras... Daqui a pouco as Cunhantãs31 chegam do Lago Jaci Uaruá32 para dar prosseguimento à segunda noite do Festival da Lua Grande. As cerimônias sempre acontecem aqui na praia, e como você, embora estranho ao nosso meio, foi aceito por eles... – incontinenti, a Sacerdotisa colocou uma mão sobre o ombro de Lucas e com a outra, enfatizou a mensagem apontando para a nuvem de pirilampos que continuava pulsando, agora pausadamente, na floresta que circundava a Aldeia -, dentro de uma hora, mais ou menos, a Lua Cheia vai nascer naquela direção ali ó... – graciosamente a moça esticou o braço apontando a curva do Rio Guaporé na junção da enseada e a ponta de uma ilhota.

-Festival da Lua Grande? Lago? Engraçado! Quando fiz as pesquisas no Google sobre esse lugar, sobre o Hotel, a região... Não havia informação nenhuma sobre a existência de Lagos ou Festivais nesta época do ano... Festival? Tem certeza?

-Claro que eu tenho! Esse festival é realizado há séculos, iniciando sempre na primeira noite de Lua Cheia e culminando na sétima Lua, a Lua Grande... Começou com a minha tataravó, a Uiára33, para marcar a Lua em que ela, índia guerreira e fundadora da Aldeia Urucumacuã, de onde nós viemos, em sangrenta batalha, derrotou o pai dela, o Pajé Ipupiara34, tirano que aterrorizava toda essa região.

-Repito! – insistiu o Lucas - Pesquisei muito sobre esta região antes de vir para cá, e garanto, nunca ouvi ou li nada a respeito de tudo isso que você falou... E olha que reza a “lenda urbana” o seguinte: ‘Amigo, se você procurou no Google e não encontrou, relaxa, não existe! ’

-Gúgôu!?!? Nunca ouvi falar e não tenho a menor ideia do que seja isso... O que eu sei é que essa é a história da Aldeia e qualquer morador das beiras desses rios conhece de frente pra trás e de trás pra frente. Todos os caboclos sabem disso.

Caminhando em direção à praia, a nativa fez um sinal para os dois caboclos, instando-os a seguirem-na.

-Sotálio!? Inía!? Vão reavivar as fogueiras... Estamos ficando sem tempo! A chegada desse abatí35 atrasou tudo... Daqui a pouco o povo da aldeia vai para a praia, as cunhantãs vão chegar com os muiraquitãs36, a Lua Cheia vai nascer e os preparativos para a dança do ritual... – a Sacerdotisa foi novamente interrompida por Lucas.

-Que ritual, Iara?

A Sacerdotisa parou de caminhar e, postada diante de Lucas, ficou olhando-o fixamente, como se avaliasse se deveria responder à curiosidade do abatí, explicando-lhe os detalhes e a razão do ritual que ele, involuntariamente, havia participado na noite anterior e que, por força da determinação do Espírito da Floresta, o Curupira37, através das mensagens transmitidas pelos pirilampos, haveria de continuar participando até a chegada da Lua Grande para a consumação final. Por fim, deu um sorriso enigmático e resolveu dizer a Lucas apenas o nome do ritual, “Ritual do Acasalamento”, omitindo o detalhe de que apenas a fêmea sairia ilesa ao final da cerimônia de encerramento. Então, falou somente o que era de interesse particular de Lucas:

-“Ritual do Acasalamento”, Lucas! Durante todo o período do ciclo lunar, vamos nos acasalar intensamente sob a luz da Lua Cheia, até que, no ápice da fase lunar, na última noite, na noite da Lua Grande, novos frutos serão gerados e então, Sotálio e Inia seguirão seus destinos e um novo ciclo se iniciará.

Lucas ainda pensou em perguntar que novo ciclo seria esse, mas, pensando melhor, era preferível deixar as coisas seguirem seu curso. Com o tempo, provavelmente grande parte das perguntas seriam respondidas, e a sua curiosidade saciada.

- o -

Quando chegaram à praia, os nativos Inia e Sotálio já haviam acendido uma enorme fogueira, e, há uns dois ou três metros de distância da fogueira, tinham montado um jirau38 com várias flores aquáticas e um jamaxi em cima.

Os habitantes da aldeia foram chegando em pequenos grupos que se espalharam ao longo da praia. Porém, aos poucos formaram rodinhas de conversas aqui e acolá, matando o tempo e esperando o início da cerimônia. As conversas seguiam animadas entre os pequenos grupos de aldeões quando do outro lado da prainha surgiu uma cunhantã seguida de muitas outras, todas com as cabeças ornamentadas com tiaras tecidas com pequenas flores brancas e amarelas.

Muito admirado, Lucas observou que existia uma estranha sincronia regendo os nativos presentes na pequena praia. Enquanto as moças, e/ou cunhantãs, como a Iara se referiu a elas, chegavam por um lado da praia, outros nativos portando diversos instrumentos musicais saíam da mata e caminhavam pelo lado oposto em direção à fogueira. Todos seguiam altiva e pausadamente. Cientes de seus papeis naquele teatro cerimonial.

Lucas também observou que, como na noite anterior, todos estavam despidos, com a diferença de que os músicos agora traziam as cabeças ornadas por cocares de penas - e pelo tamanho e cores vivas das penas -, Lucas deduziu que fossem penas de araras.

Quando todos os partícipes da estranha cerimônia chegaram ao centro da prainha, onde as fogueiras, vigorosamente, espalhavam fagulhas rubras em direção ao céu. As cunhantãs e os músicos, iluminados pelas labaredas, deslocaram-se ao redor da fogueira central - a maior de todas -, formando um círculo onde quedaram-se silenciosos. Incontinenti, a Sacerdotisa e os caboclos espadaúdos, correram para a água, e lá permaneceram submersos por alguns minutos, que para Lucas, pareceram eternos. Enquanto os três personagens estavam submersos, dois enormes botos davam saltos acrobáticos pela enseada que se agitava fragorosamente como se, no fundo do rio, algo gigantesco agitasse as águas fazendo com que banzeiros39 enormes jogassem as plantas aquáticas na areia, atapetando-a de verde musgo.

Lucas ainda olhava simultaneamente para o rio e para as plantas aquáticas que atapetavam a praia sem querer acreditar no que estava vendo, quando a Iara seguida dos caboclos Inia e Sotálio começaram a surgir na água há alguns metros na margem da praia.

Primeiro, surgiu a cabeça da Iara, ornada com uma tiara de flores brancas e amarelas. A Sacerdotisa, como na noite anterior, estava completamente despida, porém, desta vez, trazia ao peito, pendurado num cordão de couro, um estranho amuleto com a forma estilizada de um batráquio. O amuleto chamou a atenção de Lucas em razão dos reflexos esverdeados que o estranho objeto reluzia quando a Sacerdotisa ficava de frente para a fogueira ou quando os raios de luz da Lua incidiam sobre ele. Em seguida, os caboclos, também despidos, surgiram alguns metros atrás da Iara. Ambos também despidos e trazendo a cabeça ornamentada com cocares de enormes penas vermelhas e azuis. Provavelmente, penas de araras também, pensou Lucas.

Para Lucas, tudo se repetia em quase todos os detalhes da noite anterior. Com a exceção que, desta vez, ele era uma espécie de convidado ou partícipe, e, claro, não estava filmando clandestinamente o início da cerimônia.

A Sacerdotisa, sempre ladeada pelos caboclos Inia e Sotálio, caminhou para o centro do círculo formado pelas cunhantãs e os músicos, e, ao postar-se em frente à grande fogueira que ardia como uma fornalha, os atabaques e os tambores romperam o silêncio que envolvia a praia e a mata que a circundava.

A nuvem de pirilampos, aos primeiros acordes das flautas, pulsando, deslocou-se para o rio e, acima das águas, sempre pulsando ao ritmo das batidas do coração, avançavam e recuavam por sobre as águas em direção à praia, sem no entanto, pairar por sobre as areias.

A cadência dos tambores ritmava o sonido das flautas e a pulsação dos pirilampos. Lucas sentiu que os sons dos instrumentos fundiam-se com as batidas do coração e, aos poucos, a sua mente foi sendo tomada pelo ritmo envolvente dos instrumentos e do caleidoscópio de luzes verdes limão e esmeralda dos vagalumes etéreos. Sem perceber, Lucas foi balançando a cabeça e movimentando os braços e as pernas ao ritmo dos atabaques e os rufares dos tambores. Em pouco tempo ele estava no meio do círculo dançando com a Sacerdotisa. A linda nativa, sempre meneando os quadris e fremindo os seios túrgidos, acenou para uma das velhas da noite anterior, e esta, por sua vez, colocou um coité cheio da estranha beberagem em suas mãos, o que de pronto, após vários gestos ritualísticos, a Sacerdotisa entregou o vasilhame para Lucas, instando-o a beber. Sem parar de dançar, Lucas ladeado pelas cunhãs e os dois acólitos musculosos, já em completo transe, nem percebeu que bebeu todo o conteúdo do líquido cerimonial. Em seguida, as velhas pegaram de volta o coité, encheram-no novamente juntamente com uma bilha que estava no jirau erguido junto à fogueira e saíram cada para uma lado da praia instando dançarinos e dançarinas, músicos e nativos a beberem a ayahuasca. Ao receberem os vasilhames, os presentes erguiam o coité e a bilha cerimoniosamente em direção à Lua brilhante e bebiam a ayahuasca com calma reverente, fechavam os olhos e saiam dançando na cadência dos rufares dos tambores e atabaques.

À medida que o ritmo dos tambores, pandeiros e atabaques ficava mais rápido, as batidas do coração de Lucas aumentava a pulsação e os corpos de todos os dançarinos, varões, cunhantãs e nativos fremiam em êxtase.

No auge do transe dos nativos e Lucas na praia, a Lua Cheia surgiu esplendorosa ao despontar por detrás das copas das árvores que margeavam a curva do Rio Guaporé na junção da enseada e a pontinha da ilhota para iluminar os atores naquele tablado surrealista.

Uma luz vívida e prateada resplandeceu nos corpos suados da Sacerdotisa ladeada pelos caboclos, Lucas, dançarinos e músicos que revoluteavam em transe no meio da praia.

Em movimentos cadenciados e sinuosos, a Sacerdotisa direcionou os dançarinos para o Rio, e no transe embalado pelas batidas dos tambores e atabaques, o grupo de dançantes se espraiou ao longo da margem do Rio; a Sacerdotisa, os acólitos e Lucas penetraram nas águas frias e negras do Rio Guaporé. Quando a água atingiu a cintura de Lucas, ele se deu conta que seu corpo havia se transmutado em uma enorme serpente, exatamente como na noite anterior. A exceção, percebeu Lucas, é que ele mantinha a cabeça e os braços na forma humana. Quase sem surpresa, Lucas olhou à sua volta e viu a Sacerdotisa e os guarda-costas, Inia e Sotálio metamorfosearem-se em cobra grande e botos. Lucas quase chegou a sorrir quando percebeu que a Sacerdotisa, assim como ele, também manteve a forma humana da cabeça e dos braços. Quanto aos demais, as dançarinas, dançarinos, músicos e as velhas, todos, como na noite anterior, assumiram as respectivas formas metamórficas. As velhas transmutadas em corujas, Matintas Pereira, alçaram voo e ficaram planando acima da nuvem de pirilampos que pulsava sobre a margem do Rio nas fraldas da prainha. Os músicos e os dançarinos, metamorfoseados em porcos do mato, caititus, grunhiam em bandos a correr de uma ponta a outra da praia. As dançarinas, agora transformadas em aves aquáticas diversas, esvoaçavam por sobre a mata e o Rio em grandes alaridos, ladeando a nuvem de vagalumes. Ao centro de tudo, do teatro inusitado, como atores principais, Lucas, a Sacerdotisa e seus acólitos faziam banzeiros no meio do Rio. Os animais noturnos, aves, mamíferos e repteis que habitavam a mata circundante, com seus pios, silvos, gritos, grunhidos e rosnados, faziam uma algaravia tão grande que rebombava por sobre as águas e iam acordar os outros animais que dormitavam na margem oposta fazendo-os aumentar a cacofonia de ruídos, gritos e cantos.

Por um momento, fugaz, a selva silenciou. Foi o momento em que Lucas e a Sacerdotisa enroscaram um no outro as caldas de serpentes e sofregamente uniram as bocas, os braços se abraçaram, e enredados, foram ao fundo do Rio e voltaram à tona várias vezes. E do alto de um tronco seco e sem galhos, um Urutau, comumente chamado pelos nativos de “Mãe-da-Lua”, cumprimentando o coito louco, selvagem do casal metamórfico, olhando para a Lua Cheia, entoou longamente seu canto num lamento lúgubre, o que foi acompanhado pelo rasgar fúnebre de panos, a rasga-mortalha, cantos característicos das corujas Matintas Pereiras.

Lucas ainda estava vibrando com o sexo selvagem que estava praticando com a Sacerdotisa, quando num repente, tudo parou, os ruídos cacofônicos da selva silenciaram. Não se ouvia nem o marulho das ondas provocadas pela correnteza mansa do Rio. Tudo estava estático. Os tambores, os atabaques, os pandeiros e as flautas, em silêncio total. A selva e o Rio estavam mudos. Lucas e a Sacerdotisa não estavam mais no meio do Rio e nem tinham mais caldas de serpentes. Agora, eram apenas dois jovens amantes que estavam nus, deitados e arfantes na areia da praia. Sem entender absolutamente nada do estava acontecendo, Lucas percebeu que todos os acompanhantes da Sacerdotisa haviam ido embora. A luz fria da Lua iluminava as silenciosas águas do Rio Guaporé e a areia onde estavam deitados. A Sacerdotisa – como era mesmo o nome dela? Lucas perguntou-se. Iara, lembrou! -, estava deitada de bruços sobre a areia e com os longos e negros cabelos encobrindo parcialmente a bunda de deusa. Olhando para a bunda da Sacerdotisa resplandecendo lindamente à luz de Jaci, a Lua, Lucas sentiu o membro intumescer e o desejo louco de possuir novamente aquela mulher, aquela deusa, o invadiu. Instintivamente levou a mão para acariciar aquela bunda maravilhosa a fim de, com o carinho adequado, excitar novamente a Sacerdotisa, porém, na languidez do sono, a jovem moveu-se e sentindo a mão do jovem sobre o seu corpo, acordou e com um salto felino, levantou-se.

Lucas ainda tentou retê-la junto a ele, argumentando para ficarem juntos mais um pouco, no entanto, a jovem nativa esquecendo-se completamente de Lucas, gritou algumas palavras em uma língua estranha em direção ao Rio, e logo em seguida os acólitos Inia e Sotálio saíram das águas espadanando gotas e a seguiram em direção à mata. Provavelmente iam para a aldeia de onde estiveram poucas horas antes. Porém, antes de sumir no dossel de lhanas, arbustos, moitas de tamba-tajá e samambaias que encortinavam as fraldas da selva, a Sacerdotisa, voltando-se altivamente para Lucas, concedeu-lhe algumas palavras de explicação.

-Vá descansar, Lucas! Por hoje, o “Ritual do Acasalamento” acabou.

Absolutamente estupefato, Lucas continuou sentado, sentindo a frigidez da areia na bunda desnuda, o pênis desmilinguido e olhando o trio sumir mata adentro. Recobrando-se da surpresa, o jovem levantou-se de um salto e correu no encalço dos místicos personagens. Após uma caminhada de alguns minutos dentro da mata, nova surpresa. Lucas haviam perdido o rastro e/ou qualquer vestígio da Sacerdotisa e seus acompanhantes. Da aldeia? Nem sinal!

-Puta-que-os-pariu! – Lucas gritou para os maçaricos que ciscavam na areia. – Vai começar tudo de novo... Caráaalhô! – grunhiu, e continuou falando sozinho. – Será possível que eu estou ficando maluco, meu? Ninguém pode sumir assim...!!! Na boa...!?! Do nada, cara!? E cadê a porra da aldeia? Cadê as fogueiras espalhadas por entre as ocas? Cadê aquelas pessoas todas, caralho? – e tomando o caminho de volta à prainha enquanto que, com as mãos, batia vigorosamente nos braços e pernas para retirar formigas e insetos grudados no corpo suado, concluiu. – Essa mulher é de outro mundo, cara... Só pode! Muito gostosa, não tenho dúvida, mas que é de outra dimensão, parceiro, lá isso é! Coisa de louco, sô!

A caminho da prainha, pulando por cima de raízes e tomando cuidado para não pisar em pontas de galhos secos e espinhos os mais variados, Lucas sentia que toda a situação não passava de um “dejà vú” mixuruca. Sem outra alternativa a não ser voltar ao ponto de partida, quando chegou à prainha e foi até o Rio lavar-se e tentar curar a ressaca da bebida ritual. Depois de olhar atentamente para as margens e por sobre as águas, por entre as canaranas e perscrutar com olhos de lince as ilhas de vegetação aquática sem vislumbrar o menor vestígio de jacarés, entrou nas águas escuras do Rio Guaporé e banhou-se preguiçosamente dando braçadas lentas e agitando levemente os pés, sempre perto da margem. Com as mãos apoiando o fundo arenoso do Rio, Lucas mergulhava bem devagarinho e ao boiar, soprava com vigor o ar preso nos pulmões imitando os botos Inia e Sotálio. Depois de um demorado banho, Lucas caminhou em direção ao beribazeiro para saciar a fome que lhe abrasava o estômago.

Comeu até se fartar.

Para passar o tempo, juntou as cascas e caroços de beribá e os enterrou bem longe de onde pretendia montar um improvisado acampamento para esperar a possível passagem de pescadores ou quaisquer outros caboclos que descessem ou subissem o Rio. Lucas se recusava a acreditar que, tirando a enigmática jovem, seus guarda-costas e os nativos das noites anteriores que tinham o misterioso dom de sumir na mata sem deixar vestígios, ele seria o único ser vivo naquela parte da mata amazônica. "Meu, isso é uma puta de uma sacanagem" - concluiu.

Mesmo assim, Lucas ainda perguntava-se angustiado:

E a merda do hotel do outro lado do rio? Será que os empregados e hospedes não viram ou ouviram os habitantes da aldeia dançando ao som dos tambores e atabaques? Não viram ou ouviram a fuzarca que ele, a Sacerdotisa e os capangas dela fizeram dentro do Rio? Caralho! A farra que todo mundo fez naquela prainha não podia passar despercebida! Não podia!

Dando um pequeno grito após beliscar-se no braço, Lucas continuou conversando consigo mesmo – “Cara! Eu tenho certeza, absoluta, de que não estou maluco! E então? O que é que, realmente, está acontecendo? E os meus equipamentos? Onde estão? O celular? A máquina fotográfica? Minhas roupas? A canoa?" – no limite do desespero, Lucas gritou - Que fim levou tudo isso, porráááááá?


Enquanto se fazia perguntas e mais perguntas sobre o paradeiro de seus pertences, Lucas caminhava de um lado para o outro da prainha olhando atentamente para os galhos e moitas que circundavam a faixa de areia. Às vezes entrava alguns metros na mata, andava olhando acima e abaixo dos galhos das árvores e nas folhas de arbustos, moitas de tajás e samambaias. Outras vezes, retornava à prainha e procurava rastros em lugares que julgava ter andado. Por fim, convenceu-se de que seus equipamentos, simplesmente, tinham sumido... Evaporado! A canoinha, então? Havia sumido! Tragadas pelas águas do Rio ou pelos mistérios do lugar.

Desanimado, Lucas sentou na areia e pensou: “Cara! ‘Tôu fudido! ‘Tô no cú do Saci!!!

A desilusão em encontrar os equipamentos eletrônicos e a canoinha, juntando à caminhada na busca infrutífera de seus bens e a noite mal dormida, mais a ingestão da misteriosa bebida cerimonial Ayahuasca, a conta do cansaço foi apresentada a Lucas.

Primeiro, ele sentiu a sensação de que um turbilhão de águas revoltas estivessem agitando o seu estômago; depois, essas águas juntaram-se à bílis, subiram o epigástrio e buscaram um lugar para sair... Sôfregas, amargas e fumegantes.

Lucas vomitou copiosamente. Uma, duas, três vezes... Quando finalmente conseguiu recuperar-se, uma náusea insuportável inundou sua cabeça. Tudo ficou rodando à sua volta. As matas e a prainha, o Rio e o Céu azul anil... Tudo!  Sem conseguir controlas as náuseas, Lucas, antes de desmaiar, vislumbrou por entre as névoas que pairavam ante seus olhos, pequenos pontos de luzes multicoloridas. Apagou!

Quando acordou, Lucas não sabia precisar quanto tempo ficara desacordado. O corpo coberto de pequenos insetos e pontinhas de gravetos espetados, pinicava irritantemente. Uma aragem fria vinda do Rio causava-lhe calafrio no corpo enregelado e seus olhos turvos de lágrimas causadas por uma incipiente enxaqueca, perceberam que o Sol se recolhia lá para a curva do Rio Guaporé. Lucas bateu as mãos nos braços, tronco e pernas para limpar-se, ainda que parcialmente, do incômodo causado pelos insetos, gravetos e folhas grudados por todo o corpo. Tentou sacudir a cabeça, porém, uma dor lancinante o convenceu de desistir do intento.

Vagarosamente, o pobre coitado caminhou trôpego em direção ao Rio.

Lucas mergulhou lentamente nas águas frias e escuras do Rio Guaporé. Com as mãos apoiadas no fundo arenoso, sentiu a correnteza passar ao longo do seu corpo trazendo o vigor do Rio para os seus músculos entorpecidos, o que recuperou um pouco as suas forças. Depois de encher a boca de água, Lucas gargarejou e cuspiu longe a água repleta de resíduos azedos e malcheirosos. Para completar a rústica higiene, encheu a boca de água novamente e repetiu o processo de gargarejo vezes sem conta.

Sentindo-se limpo e aliviado da coceira causada pelos pedaços de insetos e pequenos gravetos que estava grudados pelo corpo, Lucas, com as forças revigoradas pelo primeiro banho, ainda estava dando braçadas e mergulhos no Rio, quando numa das vezes em que emergiu a cabeça, vislumbrou lá na ponta da prainha, a nativa saindo da água e acompanhada dos dois inseparáveis companheiros.

Quase sem acreditar e acreditando no que estava vendo, Lucas, cuspindo água, exclamou alto:

-Puta-que-os-paríííuuuu!!!! “Déjà vu”, de novo???

Antevendo o que estava por vir, Lucas caminhou resoluto em direção ao trio de nativos.

-E aí, o que vai ser esta noite? Vamos tomar aquele chá de cogumelos, dançar ao som dos atabaques, transar adoidado e entrar em um novo “barato”? Ficar doidões de novo?

-Não, Lucas! A bebida cerimonial Ayahuasca não é chá de cogumelo e nem é tomada para deixar quem quer que seja “doidão”... Ela serve para ajudar o iniciado a entrar em êxtase. Para entrar em sintonia com a floresta, o rio e os lagos... É uma bebida sagrada, e ingeri-la, é um privilégio de poucos. Você, deveria sentir-se agraciado por bebê-la em nossas cerimônias.

Franzindo o cenho e depois arregalando os olhos numa demonstração involuntária de surpresa, Lucas sorriu com escárnio e falou entredentes:

-Agraciado, eu? Garota, você só pode estar de sacanagem comigo. À exceção da excelente noitada com você... O que aliás, dado o efeito da tal bebida cerimonial, tenho minhas dúvidas se tudo o que aconteceu foi verdadeiro ou apenas uma alucinação. O resto só me causou dor de cabeça e mal estar.

A nativa concedeu ao atônito rapaz um raro sorriso e, incitando-o a caminhar ao seu lado em direção às fraldas da mataria, sinalizou aos seus acólitos para irem recolhendo galhos secos que pontilhavam a praia aqui e acolá. Ao se aproximarem do dossel de lhanas, arbustos e galhos pendentes das árvores de diversos tamanhos que fronteiravam a selva da prainha, a Sacerdotisa parou e, virando-se para Lucas, olhou diretamente para os olhos do rapaz e comentou:

-Lucas, se tudo o que aconteceu entre nós e tudo o que você presenciou é verdadeiro ou não, você só vai saber ao final do “Ritual do Acasalamento”.

Essa mulher não existe! É de outro mundo, só pode! A gente está transando há dois dias e para ela tudo não passa de acasalamento... Acasalamento um caralho! Para ela, eu não passo de um mero reprodutor...” – Lucas foi interrompido em suas elucubrações frustrantes pela indiferença demonstrada pela Sacerdotisa que, não dando a mínima pelo que se passava pela cabeça do abati, continuou falando como se não tivesse havido uma pequena pausa em suas explanações.

-Aliás, Lucas! Hoje, temos nova cerimônia. E, devido Jaci aparecer mais tarde, lá pela hora em que o Urutau solta o seu primeiro canto, tenho tempo para lhe mostrar como as Muiraquitãs são esculpidas pelas Cunhantãs na beirada do Lago Jaci Uaruá.

Intrigado, Lucas deu uma pausa na caminhada, e, segurando delicadamente o braço da Sacerdotisa - o que despertou imediata animosidade de seus acólitos -, perguntou:

-Peraê, Iara! Muiraquitã? Lago Jaci o quê?

-Uaruá! Completou a Sacerdotisa.

-Então...! Lago Jaci Uaruá...!!! O que é que tem a ver essa... essa tal de Muiraquitã e esse Lago aí, Jaci não sei o quê com a tal Cerimônia de Acasalamento, Iara? Pensando bem... O que é Muiraquitã? Nunca ouvi falar sobre esse nome... O que é que é? Muiraquitã?

-Muiraquitã, Lucas, é uma pedra sagrada à qual somente as Cunhantãs escolhidas por mim têm acesso. Nas épocas dos Festivais do Acasalamento, elas se encaminham até ao Lago Sagrado para esculpi-las e depois as trazem para serem consagradas na última noite do Festival.

-´Tá legal! E qual a importância delas? Para que servem? – com um toque de impaciência, Lucas fazia perguntas e mais perguntas... Perguntas sobre as quais a Sacerdotisa, aparentemente, não estava mais disposta a dar quaisquer respostas.

-Lucas, tem determinadas coisas em nosso mundo que você não compreenderia, pelo menos até estar totalmente iniciado... Até agora, você tem feito o papel para o qual foi escolhido... Tem se comportado bem nas Cerimônias... – fazendo uma pausa na conversa, a Sacerdotisa voltou a caminhar em direção a picada em que o grupo havia entrado na noite anterior, sempre acompanhada pelos acólitos. Já dentro da mata, a Iara retornou as explicações para o cada vez mais curioso e intrigado Lucas – Veja bem, Lucas! Poucos... Pouquíssimos mesmo, sobreviveram, isto é, mantiveram o juízo à primeira noite da Cerimônia... Alguns não resistiram, outros, ficaram loucos, sem serventia nenhuma. A sacerdotisa parou de caminhar por um momento, segurou ambos os braços de Lucas e olhando fixamente em seu olhos, falou num sussurro, quase um sibilo:

-Abati, eu espero, sinceramente, que você resista e consiga manter a sanidade até o final do Festival. Você é um varão forte e, com certeza, deve gerar filhotes fortes, robustos... Assim como o Inia e o Sotálio. A propósito, Lucas, respondendo a tua pergunta, as pedras são as chaves.

Sem mais palavras, a Sacerdotisa voltou a caminhar em direção a um brilho avermelhado mais para o centro da mataria.

Com um arrepio e um frio intenso percorrendo a espinha e sentindo os pelos da nuca eriçarem-se, Lucas engoliu as muitas perguntas que ainda tinha para fazer e seguiu o trio em silêncio angustiante. No entanto, uma “mosquinha” ficou zumbindo em seu ouvido: “Chave? Chave para abrir o quê?

Caminharam mais alguns instantes e chegaram em uma clareira iluminada por várias fogueiras que refletiam suas labaredas nas águas plácidas de um lago de águas escuras, salpicado aqui e ali por enormes Vitórias-régias que espraiavam suas grandes folhas circulares ornadas por bordos de vermelho vivo, que naquele momento pareciam incandescer devido ao rubro reflexo das fogueiras.

Às margens do lago, caboclas de indizíveis belezas, as Cunhantãs, completamente despidas e tendo como adorno, apenas tiaras confeccionadas de pequenas flores aquáticas brancas, manipulavam algo com as mãos dentro das águas escuras.

Devido a curiosidade inata, Lucas, institivamente caminhou em direção ao lago para, além de ver mais de perto a nudez esplendorosa das nativas, identificar o que é que elas tão laboriosamente se concentravam, a ponto de não darem a mínima, para a chegada da Sacerdotisa, seus acólitos e ele.

No entanto, Lucas foi contido com agressiva firmeza pelos dois acólitos que o encararam com franca hostilidade.

-Uéééé...!!! Não posso ver o que elas estão fazendo, não?

-Não, Lucas! Somente eu, por ser Sacerdotisa, e as Cunhantãs, todas virgens, podem se aproximar e ou entrar no Lago Sagrado. Nenhum homem, varão ou Curumin40 pode chegar perto do Lago e, principalmente, entrar nele, sob pena de morte imediata.

-Peraê! Como é que é...??? Morte imediata? E você fala assim...?!? Na maior? Em matar um ser humano? Assim...?!? Na bucha? Sem nem pestanejar? E a polícia? E o respeito às leis, como é que fica?

-Abati, entenda de uma vez por todas, as leis e as regras dos abati não se aplicam no mundo de Urucumacuã. Lucas, você ainda não percebeu que nós estamos em um mundo diferente? Você ainda não percebeu que você está no Reino da Aldeia de Urucumacuã?

-Caralho!!! Como é que é? Quer dizer que eu estou na Terra e ao mesmo tempo eu não estou? Estou em u mundo paralelo? É isso? Que porra é essa???

-Entendeu agora, Lucas, por que é que alguns abati não conseguem aguentar até o final do Festival do Acasalamento? Ou se acabam, ou então ficam loucos? Doidinhos de pedra?

Mesmo diante do extraordinário narrado pela Sacerdotisa, Lucas não deixou de observar que as caboclas, ou Cunhantãs, como a Iara gostava de denomina-las, de vez em quando depositavam com extremo cuidado, um objeto escuro que retiravam de dentro da água em cima de um cepo forrado com folhas de bananeiras. E depois voltavam a colocar as mãos dentro da água e tornavam a manipular alguma coisa que ele não conseguia identificar devido à distância em que se encontrava.

De súbito, Lucas percebeu que a Iara havia retomado o caminho de volta em direção à prainha. Pensou em aproveitar que ela o deixara sozinho por um breve momento e correr até a margem da Lagoa para ver o que é que as Cunhantãs tanto laboravam dentro da água, quando notou que os acólitos não estavam, como sempre, acompanhando a Sacerdotisa, pelo contrário, estavam de olho nele, semiocultos pelas sombras dos galhos que pendiam em abundância nas cercanias da clareira. Sem outra alternativa, Lucas também caminhou em direção à prainha, devidamente escoltado pelos caboclos espadaúdos e mau humorados.

Caminhando devagar pela vereda, Lucas mergulhou em elucubrações sombrias e deveras preocupantes.

Agora, fudeu tudo! Essa maluca, apesar de muito gostosa, acha que Eu, Ela, o Rio, a Selva, os dançarinos e as dançarinas e tudo o mais, pertence a outro mundo... Outra dimensão, sei lá eu! Cara! Essa tal de ayahuasca é de lascar o cano... Dá um ‘barato’ muito louco, meu! E agora? Como é que vou sair dessa? A mulher fala muitas coisas estranhas... De matar as pessoas, assim... Na maior?!? E eu, cara? E se ela cismar de foder com a minha cartola? Acabar comigo? Perdido aqui no meio da mata? Sem ninguém saber que eu estou perdido aqui? FUDIDO? Fugir para onde?

Imerso em suas preocupações, Lucas, sem perceber, parou de caminhar. Teve que sair seus devaneios com um tranco que os guarda-costas da Sacerdotisa deram em suas costas. Continuou a caminhada sem no entanto, parar de preocupar-se com a situação periclitante em que se encontrava:

Cara! Fugir pelo rio não dá... Esses dois filhos-da-puta nadam mais que um peixe, ou melhor, que um boto! Isso, se não forem botos disfarçados de gente... Sei lá eu! Porra!!! Agora, imagine, até eu estou pensando merda! Fugir pela mata... Nem pensar! Antes de amanhecer o dia eu estou morto! O pior, cara, é que eu não vi uma canoa sequer... Uma balsa, pelo menos! Essa maluca e os capangas dela surgem e desaparecem nas águas ‘na maior’... E aquelas velhas que se transformam em águias? Corujas? Sei lá eu...!!! E os dançarinos que se transformam em onças e porcos do mato? Meu! ‘Tá tudo muito confuso...!!! Puta-que-os-paríííu! Como é que eu vou sair dessa? Merda! Como é que eu vim parar aqui?

Mais uma vez Lucas foi tirado de seus devaneios, agora pelo chamado insistente da Sacerdotisa:

-Vamos, Abati! As fogueiras na praia já estão acessas, as Cunhantãs já colocaram as bilhas com a Bebida Cerimonial em cima dos jiraus e daqui a pouco o Festival vai começar. Desta vez você vai me esperar ao lados dos caboclos dos atabaques enquanto eu, Inia e Sotálio vamos até ao Rio.

Lucas ainda tentou algum argumento, mas, a Sacerdotisa acompanhada dos acólitos já estava com a água pela cintura, lá pelo meio do Rio Guaporé. Lucas ainda meio aturdido viu-se rodeado pelos músicos e dançarinos e caminhou com eles para junto dos instrumentos. Sem mais o que fazer, sentou-se, encolheu as pernas, escorou o queixo em cima dos joelhos e ficou pensando novamente no inusitado de sua situação.

Agora sim! Que situação...! Ainda há pouco eu estava me perguntando como é que eu vim parar aqui? Na verdade, eu tenho que me perguntar é: ‘Como é que eu vou fazer para sair daqui? Dessa sinuca de bico, cara?’ Algum fenômeno estranho me trouxe para cá. Então... Esse mesmo fenômeno deve me tirar daqui. Eu só tenho que descobrir como... Tá fácil! Facinho... Facinho!

Lucas, assim como quem não quer nada... Levantou-se, meteu a mão entre as nádegas para tirar a areia que o incomodava, disfarçou olhando para um lado e para o outro. Virou-se para as fogueiras, deu um passo e parou. Olhou para um lado, disfarçou novamente, olhou para o outro, passou a mão na bunda para tirar mais areia colada no rego do cóccix. Deu mais um passo. Olhou para os músicos, dançarinos e dançarinas que conversavam entre si, e caminhou disfarçadamente para o jirau onde estavam as bilhas com as bebidas e as Cunhantãs que arrumavam pequenos objetos esverdeados em cima de folhas de bananeiras.

Caminhando em direção ao jirau, Lucas percebeu que pequenos pontas de luzes começavam a surgir no seio da mata. E o estranho, é que, à medida que se aproximava do jirau, os pequenos brilhos neon esverdeados aumentavam também. Indiferentes a tudo em volta, as Cunhantãs, concentradas em suas tarefas, continuavam a arrumar os objetos verdes esmeralda em cima do jirau.

Lucas ficou parado por alguns instantes e, com o rabo do olho, ficou observando a nuvem em tamanho considerável de pirilampos que brilhava com intensidade à medida que avançava de dentro para fora da mata. Lucas percebeu também que no momento em que parou de caminhar em direção às Cunhantãs e o jirau onde estavam depositados os objetos esverdeados, a nuvem de vagalumes também parou.

Intrigado com o estranho fenômeno, Lucas, sem dar muita importância aos dançarinos e aos músicos, vagarosamente deu alguns passos em direção às Cunhantãs, sempre observando a nuvem de pirilampos.

Parou assustado.

Os pirilampos, na mesma proporção, avançaram em sua direção. Para confirmar o temor, Lucas, deliberadamente, retrocedeu os mesmos passos.

Arregalou os olhos desmesuradamente. A nuvem de vagalumes recuou na mesma proporção.

-Caralho! – murmurou Lucas. Depois, pensou: “´Tá foda, véi! É melhor voltar”.

Sem outra alternativa, Lucas voltou paras junto dos músicos, juntou algumas folhas e fez uma espécie de tapete para sentar. Lembrava-se nitidamente do incômodo da areia arranhando o rego da bunda. Sentou-se e ficou aguardando o retorno da Sacerdotisa.

Enquanto aguardava o retorno da Iara, Lucas olhou para o seio da mata e percebeu que a nuvem de pirilampos havia recuado bastante para dentro da mataria, porém, continuava pulsando quase imperceptivelmente. Na verdade, aquilo tudo que estava acontecendo era deveras assustador.

Em uma palavra: Aterrorizante!

Puta-merda! Onde eu fui me meter?” – pensou.

Foi tirado de seus devaneios pelo chapinhar de água na margem do Rio. A linda e enigmática Sacerdotisa estava saindo da água, sempre acompanhada pelos seus acólitos, Inia e Sotálio.

Como das vezes anteriores, a Sacerdotisa, completamente despida, com os seus longos e negríssimos cabelos escorridos por sobre os seios, e trazendo à cabeça uma coroa de flores aquáticas brancas, caminhou para o centro da prainha e postou-se estática. Em seguida, os dançarinos acenderam várias fogueiras ao longo da praia, deixando para acender por último a fogueira à frente da Sacerdotisa, na verdade, a maior fogueira de todas.

Lucas percebeu que desta vez não tinha nenhum madeiro fincado no centro da prainha. Com uma risada sacana, Lucas imaginou que a ausência do madeiro talvez se devesse à sua total integração, ou seria aprisionamento ao grupo? De qualquer forma, que importância tinha esse detalhe? Nenhum! Conformou-se.

A música começou como das vezes anteriores, baixinha, quase inaudível. Primeiro, os atabaques soltaram uns pequenos sonidos, como se os músicos relassem somente as pontas do dedos nos couros previamente esticados no calor das pequenas fogueiras acessas na frente da trupe de músicos. Em seguida, os tambores rufaram num tom um pouco abaixo dos atabaques. Um barulho surdo, quase como ressonar de um adormecido. Completando o som evolvente dos tambores e atabaques, os pandeiros repinicaram no mesmo tom. A selva e o Rio foram tomados pelo ressoar quase inaudível dos instrumentos de percussão. O som cadenciado, aos poucos, foi entrando no compasso das batidas dos corações dos atores daquele teatro surreal. A selva, o Rio, a Sacerdotisa e seus acólitos ficaram pulsando e ondulando na cadência dos tambores, atabaques e pandeiros.

Uma brisa veio do Rio e ficou agitando folhas, galhos e arbustos que circundavam a prainha. De dentro da selva, a nuvem de pirilampos, pulsando ao ritmo dos tambores, avançou em direção ao Rio.

E veio avançando... Avançando... Passou por sobre os músicos... Avançou mais um pouco... Pairou por alguns instantes sobre os dançarinos e continuou avançando... Por fim, parou sobre a Sacerdotisa e seus acólitos e ficou lá... Pulsando! Pulsando!

Lucas com os olhos arregalados de espanto, percebeu que, institivamente também meneava o corpo, lentamente... Como se possuído por uma força estranha... Superior!

Sem domínio sobre sua vontade, Lucas, sempre meneando o corpo, involuntariamente foi avançando em direção à Sacerdotisa como se estivesse sendo atraído por uma força estranha... Superior! Tentou resistir, não conseguiu.

Enquanto Lucas era atraído para o centro da prainha, para a Sacerdotisa e seus acólitos, a nuvem de pirilampos, sempre pulsando, de vez em quando baixava e envolvia o trio. Nesse momento, a pele da Sacerdotisa e de seus acólitos parecia adquirir um brilho especial... Um verde limão neon... Sutil! Nesse momento também, uma espécie de plasma, contorno talvez, sobressaia dos três personagens principais. Uma imagem tridimensional em forma de serpente projetava-se da nativa, o mesmo ocorria com seus acompanhantes. Com a diferença que, deles, sobressaia a imagem de dois cetáceos. Eram umas imagens fugazes, quase não se percebia. Lucas achou que fazia parte do transe em que estava mergulhando.

A despeito dos estranhos fenômenos presenciados por Lucas, ele continuava, inexoravelmente, sendo atraído para o trio. Quando Lucas juntou-se à Sacerdotisa e seus acompanhantes, a nuvem de pirilampos elevou-se e avançou para o Rio... E ficou lá... Pulsando!

Neste momento, as flautas e gaitas começaram tocar uma música cerimonial em harmonia ao som dos instrumentos de percussão em ritmo cada vez mais acelerado. Em instantes, a Sacerdotisa, os acólitos, Lucas, dançarinos e músicos estavam dançando freneticamente em completo transe.

Todos os presentes na praia meneavam os corpos desnudos com gestos cada vez mais sensuais; dançarinos e dançarinas entrelaçaram seus corpos suados dançando lascivamente. Lucas, a todo momento, era abraçado e solto pela Sacerdotisa que requebrava os quadris em movimentos sensuais, frenéticos, como se já estivesse em plena cópula.

No momento em que a Sacerdotisa envolvia Lucas na sua dança sensual, as duas velhas das noites anteriores acercaram-se dos dois, cada uma com um coité transbordando com a bebida cerimonial Ayahuasca e os entregou para o casal. Imediatamente a Sacerdotisa, de um fôlego só, bebeu todo o conteúdo do seu coité. Lucas ainda relutou em tomar a bebida cerimonial, no entanto, um dos acólitos interrompeu a dança por um momento e o instou a beber. Sem alternativa, Lucas também bebeu parte do conteúdo do seu coité. O acólito insistiu para ele beber o resto da bebida. Lucas levou o vasilhame até a boca, deixou-a aberta e a bebida transbordou pelo seu pescoço e peito sob o olhar atento do caboclo Inia.

Mantendo o parte do líquido na boca cheia, Lucas entregou o coité para a velha e, numa das evoluções da dança, ele deixou o líquido cair. O acólito voltou para perto do companheiro e a dança primitiva continuou ao longo da prainha.

Em instantes Lucas sentiu-se dopado como se tivesse fumado uma grande tarugo de erva. Porém, em algum lugar do subconsciente ele mantinha um resquício de razão... De sobriedade!

O batuque que saía dos tambores e atabaques era ensurdecedor. Ribombava ao longo da floresta e do Rio. A nuvem de pirilampos, no limite do Rio e da prainha, pairava no ar, avançando e recuando por sobre Lucas, a Sacerdotisa e seus acólitos.

E emoldurando toda a cena, a Lua Grande surgiu esplendorosa na curva do Rio. A Lua Azul, majestosa e prateada, alumiou os atores que atuavam no tablado arenoso daquele teatro surrealista.

E então, como se revivesse o “replay” das noites anteriores, um “Déjà Vu”, Lucas sentiu-se flutuando... Flutuando, não. Ele tinha asas e voava. Espera aí! – percebeu – ele não estava mais voando... Ele não tinha mais asas, agora ele era uma cobra, um Basilisco! Quer dizer, não era Basilisco, era um Boitatá... Como, Boitatá, se ele era cobra somente da cintura para baixo? Como assim? Será que a transformação ainda não estava completa? – perguntou-se - Mesmo assim, uma cobra grande que agitava as águas no meio do Rio. – constatou. “E a Iara? Onde estava?” – perguntou-se mais uma vez.

Empinado na longa cauda, o tronco de Lucas, como se fora um Tritão41, pairava a uns três ou quatro metros acima do nível das águas. Aceitando a metamorfose mística em andamento, Lucas olhou em volta procurando localizar a Sacerdotisa, já imaginando que ela também havia se transmutado em uma grande serpente. Uma Melusina... Corrigiu-se: “Porra, cara! Não é Melusina, é uma Boiúna!

Lucas viu a Sacerdotisa metamorfoseada em Boiúna da cintura para baixo serpenteando na prainha. “Espera aê! Que p.o.r.r.a é essa? A Sacerdotisa também não estava totalmente transformada... Ela também, como ele, era humana da cintura pra cima...???” – perguntou-se intrigado – No entanto, constatou, a cada movimento da Cobra Grande, seu corpo alongado deixava sulcos profundos na areia fina. Nessas alturas dos acontecimentos, as dançarinas transmutadas em aves aquáticas, voavam em bandos desordenados por sobre a praia e o Rio. Os dançarinos e os músicos, transformados em porcos do mato, caititus, corriam em bandos ao longo da floresta fugindo das chicotadas da cauda da Boiúna ou da Tritão fêmea. Lucas não estava entendendo mais nada.

Do meio do Rio, Lucas, com os movimentos bruscos e involuntários da longa cauda, criava banzeiros jogando ondas enormes na areia. Os porcos-do-mato que corriam esbaforidos ao longo da prainha, ora fugiam da cauda da Boiúna, ora tentavam desviar-se das vagas que o Rio lançava sobre eles.

Sobre a prainha e sobre as copas da árvores, as aves aquáticas, em algaravia, piavam e grasnavam em uma cacofonia infernal de sons, assustadas que estavam com o comportamento inóspito dos dois titãs. E pairando por sobre a balburdia criada pelos animais e pela Boiúna e seu companheiro, estava a mística nuvem de pirilampos.

Os vagalumes místicos, sempre pulsando, ondeavam do ar. Ora por sobre a praia, ora por sobre o Rio. E Lucas, com a metamorfose quase completa, do meio do Rio, inflava as narinas a cada vez que a Boiúna serpenteava. A enorme serpente, completamente no cio, exalava nuvens de feromônios que a brisa se encarregava de levar para o meio do Rio. Lucas, arfando de desejo, serpenteou a cauda impulsionando o corpo para a praia. E cada vez que fazia força para vencer a correnteza do Rio, o desejo de fazer sexo com a Iara aumentava incontrolavelmente. “Por que ela não vinha para o Rio?” – perguntava-se – “Não! Não vou esperá-la vir para o Rio, vou ‘acasalar’ essa mulher-cobra é agora mesmo!” – decidiu.

Incontinenti, Lucas serpenteou com rapidez em direção à praia. Iria possuir aquela Sacerdotisa era na areia mesmo, de qualquer jeito:

Somente um sexo louco, selvagem, iria acalmar aquela fera!” – concluiu.

Após decidir que iria para a prainha, Lucas submergiu e ganhou impulso para boiar na margem, rente à areia da prainha.

Imediatamente, Lucas enroscou o corpo na Sacerdotisa. As cobras grandes fizeram um bola reptiliana que ficou serpenteando de um lado para outro na praia, abrindo grandes sulcos onde os porcos-do-mato correndo alucinadamente em fuga, caíam aos borbotões. Às vezes, entravam na água, outras vezes, avançavam mata a dentro quebrando galhos de árvores, arbustos e amassando a vegetação rasteira. Logo depois, retornavam à praia, entravam e saiam do Rio num embate amoroso louco. Nesse embate selvagem do amor, numa das vezes em que empinavam as caudas, eles entraram involuntariamente na nuvem de pirilampos. Ao penetrar na nuvem neon de vagalumes, Lucas ou Boitatá – ele não sabia discernir a diferença - sentiu que uma corrente elétrica, muito tênue, percorreu todo o seu corpo, do topo da cabeçorra de serpente à ponta da cauda.

Neste momento, a Iara gritou:

-Nããão! Ainda não é a hora!

Em instantes, Lucas e a Iara já não eram mais duas descomunais serpentes. Haviam retornado à forma humana, eram apenas um casal de jovens caídos abraçados na areia da prainha. Ainda abraçado ao corpo quente da Sacerdotisa, Lucas sentiu que seu corpo e o da companheira ascendiam, e, junto com eles, os caititus, o Rio, a praia e a selva. Num átimo, todos rodopiavam, e nesse redemoinho louco, se juntaram às aves aquáticas. E tudo começou a girar, e a girar, e a girar num turbilhão que foi ficando cada vez mais rápido.

Ainda sem entender o que estava acontecendo, Lucas percebeu que à medida que giravam, abria-se uma espécie de portal onde todos os componentes do turbilhão iam sendo sugados para o que parecia ser um buraco de azul intenso, brilhante...

Os caititus foram os primeiros a sumirem no portal místico, em seguida as aves em meio a piados, chios e grasnados foram sendo sugadas uma a uma pelo portal. No auge do espanto, Lucas viu o Rio, a praia e a selva serem engolfados pelo buraco azul.

Num átimo, Lucas notou que somente ele e a Sacerdotisa eram os únicos que, por enquanto, ainda permaneciam no turbilhão, abraçados um ao outro.

Por pouco tempo, logo em seguida, a Sacerdotisa começou a ser sugada para o portal. Aparentando serenidade, antes de sumir no portal, a Sacerdotisa retirou um colar de contas atado a um grande pingente verde esmeralda do pescoço e o entregou para Lucas, fazendo em seguida, uns breves comentários:

-Nunca se separe desta pedra, Lucas! Tua razão depende dela!

Sem entender o que estava acontecendo, Lucas ainda tentou segurar firmemente a Sacerdotisa, porém, a força centrípeta do portal a arrancou de seus braços. Tão logo a Sacerdotisa desapareceu no turbilhão azul neon do portal, Lucas segurando firmemente o pingente, sentiu que despencava no ar. Caía velozmente em direção à prainha.

Perdeu os sentidos!

– o – o – o –

O Sol de fim de tarde estava se escondendo por cima das copas das castanheiras, lá na curva de baixo do Rio Guaporé, e seus últimos raios dourados alumiavam no lusco fusco da boca-da-noite, o trapiche do hotel, onde dois caboclos sentados na plataforma de embarque, passavam o tempo tentando pescar um Tucunaré, um Bodeco42, uma Matrinchã ou mesmo um Mandubé, peixes abundantes naquela parte do Rio.

Os caboclos, descendentes de antigas tribos de índios que habitaram a região do Vale do Guaporé, pitavam, cada um, um cigarro de tauari43. Apesar das peles curtidas pelo Sol inclemente da Amazônia, eram bem parecidos. Também pudera, eram neto e avô. O mais moço, talvez uns dezoito ou vinte anos, tinha os olhos castanhos escuros e os cabelos negro azeviche, escorridos. A pele lisa do rosto apresentava ralos fios de bigode e barba; o outro, o avô, era um caboclo de pele encarquilhada pelo tempo. A pele do rosto lembrava a casca de um jenipapo maduro quando caía do pé. Talvez tivesse a idade entre setenta e oitenta anos, todos vividos no Rio e nas matas que o margeavam. Conhecia todos os segredos do Rio Guaporé e das florestas banhadas por ele.

Estavam sentados taciturnos, olhos fixos no Rio. Chapéus de palha enterrados até a orelha e mudos. Não trocavam um palavra entre si. Apenas estavam integrados à paisagem, à aquarela do Por-do-Sol no Rio Guaporé.

A quietude da tarde que findava foi quebrada pelos passos firmes do Gerente do hotel.

-Boa tarde, “seu” Joca Aruanã! Como vai Joquinha? – o velho continuou sentado, retirou o chapéu, levantou a cabeça e respondeu monossilábico, seguido pelo neto:

-´Tarde, “seu” Antõi... – o velho respondeu acompanhado do neto.

O Gerente do hotel sorriu diante a resposta lacônica da dupla. Depois, sentou-se ao lado do velho caboclo, retirou um maço de cigarros do bolso. Acendeu um, e ofereceu o maço para o ancião e o neto, que recusaram. E ficou lá, sentado ao lado da dupla... Fumando e olhando para o Rio... Integrado à paisagem.

-“Seu” Joca...!!!

-Huuum, “seu” Antõi?
-O senhor lembra daquele turista que ficou sumido por uns três anos e que reapareceu no outro lado Rio? Assim...!?! De uma hora para a outra... O senhor que encontrou ele... Lembra?

-Sialembro! Na Praia dos Açuã... Foi lá qui nóis incontrô... Mais morto qui vivo...

-O vô sialembra, sim! Nóis trôxe o abati pru hotér...

-Lembra, “seu” Joca Aruanã, que ele não falava coisa com coisa?

-Sialembro!

-Ele falava umas coisa estranhas... Dizia que tinha dormido com a Iara... Que ele e ela viravam cobra grande... Que viu a Aldeia de Urucumacuã... Essas histórias... Lendas do povo daqui da região... Ele não parava de falar nessas histórias... O senhor se lembra?

-Sialembro!

-Pois é, “seu” Joca Aruanã! Hoje, eu recebi a notícia de que ele foi internado em uma Clínica de Repouso... Está com problemas mentais! Sabia?

-Huunfff! Não! Crínica de quê...??? Pôzo? Quiéisso?

-Clínica de Repouso, “seu” Joca Aruanã! Um lugar para pessoas desajustadas... Pessoas doidas... Alesadas!

-Alesado, é? O abati ficô leso, foi?

-Ficou, “seu” Joca Aruanã! Ficou ruim da cabeça...

-Éééégua, macho! E foi, foi?

-Pois é, senhor Joca! Bem... O sol se foi... A noite chegou... Os hospedes daqui a pouco vão jantar... Vou indo! Boa noite, senhor Joca Aruanã! Boa noite, Joquinha!

Os caboclos retiraram os chapéus respeitosamente e responderam em uníssono:

-‘Noite, “seu” Antõi...!!!

Depois que ficaram sozinhos, o velho caboclo pegou a bolsa de fumo, entregou para o neto e pediu para ele fazer dois cigarros. Em seguida, retirou do bolso da calça um pequeno embrulho, abriu-o e pegou um pequeno objeto. Era um sapo esculpido em pedra verde esmeralda.

-Ói, Joquinha... Se o abati ficô alesado, e ‘tava mintino, cumaé qui ele tinha bem preso na mão, essa Muiraquitã? A Pedra da Yara?

-Intão, vô! Cumaé, num é mermo...?

Depois e um tempo matutando, o jovem perguntou para o ancião:

-Vô...!!! Qui’será qui’tem nos treco qui nóis incontrô, lá no chavascal? A máquina de tirá retrato e o telefone do abati? Só pode sê dele, nénão Vô?

-Vai sabê...? Nóis nem sabe mexê nos bicho...

-o-o-o-

João Pessoa/PB
Dez/2015

Glossário:
  1. Catraiaembarcação de pouco calado, movida a vela, remo ou do tipo canoa motorizada, que se emprega no transporte de passageiros, e que é geralmente manobrada por uma só pessoa, o catraieiro.
  2. Charneca: extensivamente, dá-se o nome de charneca a terrenos áridos e pedregosos cobertos de vegetação arbustivas com predominância na produção de areia.
  3. Franz Liszt (1811-1886), nascido em Doborján, Áustria. Foi um virtuose no piano, criador do Poema Sinfônico, muito popular no século 19. É considerado por muitos experts como o maior pianista de todos os tempos.
  4. Forte Príncipe da Beira: O Real Forte Príncipe da Beira, também referido como Fortaleza do Príncipe da Beira, localiza-se na margem direita do rio Guaporé Esta fortaleza é considerada uma das maiores obras edificadas pela engenharia militar portuguesa no Brasil Colonial, fruto da política pombalina de limites com a coroa espanhola na América do Sul, definida pelos tratados firmados entre as duas coroas entre 1750 e 1777.
  5. Pimenta Murupi: é uma variedade de pimenta que ocorre em abundância nos Estados de Rondônia, Amazonas e Pará. É uma pimenta pequena, amarela, dividida em gomos e com formato alongado. É a pimenta brasileira mais picante.
  6. Carreador: estrada informal, improvisada ou que acaba se formando involuntariamente como um rastro em meio à vegetação devido ao tráfego de pessoas, veículos, carroças, animais, etc.
  7. Tamba-tajáO tajá é uma planta muito comum nos jardins e pátios paraenses, e também, noutras regiões amazônicas. É comumente conhecido por tinhorão, no Sul do país. O tajá é usado para a guarda e proteção das residências e comércios, de tal maneira que é colocado sempre à entrada da casa, corno um verdadeiro guardião. (Vide também, A Lenda do Tamba-tajá: http://juraemprosaeverso.com.br/TudoSobre/TambaTajaPlantadaAmETC.htm)
  8. Envira ou embira: designação comum a várias espécies arbustivas da família das timeleáceas e do gênero Daphnopsis, de flores inconspícuas, e que se caracterizam por produzir boa fibra na entrecasca. Ocorrem nas matas úmidas. Qualquer casca ou cipó usado para amarrar.
  9. Cuietê: o mesmo que cuia ou coité. Vaso feito do fruto maduro da cuieira depois de esvaziado o miolo.
  10. Araramboia: cobra-papagaio (Corallus caninus). Conhecida popularmente como araramboia, arauemboia, boa, jiboia-verde, periquitamboia, araboia, boa-arborícola-esmeralda e píton-verde-da-árvore, é uma serpente amazônica de hábitos noturnos, considerada um dos mais exuberantes ofídios.
  11. Iaçá: iaçá ou açuã, quelônio de pequeno porte. O menor dos três espécimes do gênero Podocnemis; com um tamanho máximo de 34cm de comprimento da carapaça e peso médio de 1,5 kg.
  12. Bilha: pequena vasilha bojuda e de gargalo estreito, de barro, etc., usada pelos caboclos ribeirinhos, própria para conter líquidos potáveis.
  13. Ayahuasca: Ayahuasca (do quíchua: 'cipó do morto' ou 'cipó do espírito'; de aya, 'morto, defunto, espírito', e waska, 'cipó’), também chamada hoasca, daime, iagê, santo-daime e mariri, é uma bebida produzida mais frequentemente a partir de duas plantas amazônicas (Banisteriopsis caapi, de onde se retira o cipó e/ou a raiz, e Psychotria viridis, de onde se retira a folha) para fins rituais e utilizada na medicina tradicional dos povos da Amazônia.
  14. Basilisco: em algumas descrições, o basilisco é uma serpente fantástica. Plínio, o Velho, o descreve como uma serpente com uma coroa dourada e, no macho, uma pluma vermelha ou negra.
  15. Harpias: a harpia (Harpia harpyja), também chamada gavião-real, gavião-de-penacho, uiruuetê, uiraçu, uraçu, cutucurim3e uiraçu-verdadeiro, é a mais pesada e uma das maiores aves de rapina do mundo, com envergadura de 2,5 metros e peso de até 10 quilogramas.
  16. Melusina: é uma personagem da lenda e folclore europeus, um espírito feminino das águas doces em rios e fontes sagradas. Ela é geralmente representada como uma mulher que é uma serpente ou peixe (ao estilo das sereias), da cintura para baixo.
  17. Ouroboros(ou oroboro ou ainda uróboro) é um símbolo representado por uma serpente, ou um dragão, que morde a própria cauda. O nome vem do grego antigo: οὐρά (oura) significa "cauda" e βόρος (boros), que significa "devora". Assim, a palavra designa "aquele que devora a própria cauda". Sua representação simboliza a eternidade. Está relacionado com a alquimia, que é por vezes representado como dois animais míticos, mordendo o rabo um do outro.
  18. Maçarico: designação comum às aves caradriiformes, caradriídeas, escolopacídeas e recurvirrostrídeas, gêneros Charadrius, Arenaria, Capella, que têm pernas e bicos muito longos, dedos livres, com três anteriores e um posterior. Vivem nas praias marítimas, margens de rios e lagoas do interior. São comuns nas duas Américas. (Sin., nesta acepç.: batuíra, otuituí, ituituí, tarambola, pesca-em-pé. Cf. batuíra-do-campo).
  19. Caiman: gênero de jacarés das Américas do Sul e Central que inclui o animal conhecido popularmente como caimão. Inclui as espécies: Jacaretinga ou jacaré-de-óculos (Caiman crocodilus); Jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris); Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare). – Nota do autor: (na região do Vale do Guaporé, fronteiriça com a Bolívia, os jacarés são comumente denominados de caiman, palavra de origem espanhola).
  20. Chavascal: mataria cerrada de espinheiros e outras plantas silvestres. Lugar pantanoso, movediço.
  21. Jererê: Cigarro de maconha; baseado, charo, coisa, jererê, mingote, boró, soro.
  22. Óleo de Haxixe:  ou “Hash Oil”, substancia extraída da planta Cannabis sativa ou Cannabis indica que por sua aparência semilíquida, viscosa e resinosa recebe este nome. É composta de canabinóides , como o THC e CBD e utilizada como os mesmos fins da planta in natura, ou seja efeito psicotrópico mais potencializado com variação entre 20% a 60%.
  23. Beribazeiro: (Rollinia mucosa) é uma árvore originária do ocidente da Amazônia e da Mata Atlântica pluvial. A árvore atinge entre seis e dezoito metros de altura, ramificando-se desde a base, culminando numa copa estendida. As folhas têm entre 12 a 15 centímetros de comprimento.
  24. Candiru: (Vandellia cirrhosa), também chamado de canero ou peixe-vampiro, é um peixe de água doce que pertence ao grupo comumente chamado de peixe-gato. Ele é encontrado no Rio Tocantins, no Rio Madeira e nos seus afluentes e tem uma reputação entre os nativos de ser o peixe mais temido naquelas águas. Ao ser atraído pelo cheiro, pode aprumar suas nadadeiras, ao fluxo da urina (no caso do banhista nu) e nadar até penetrar na uretra, no ânus ou na vagina.
  25. Jamaxi: Cesto para transporte de cargas, feito geralmente de trançado hexagonal, com três lados e fundo plano, provido de alça para ser carregado às costas, preso aos ombros ou à testa; panacum.
  26. Boitatá: é uma gigantesca cobra-de-fogo que protege os campos contra aqueles que o incendeiam. Vive nas águas e pode se transformar também numa tora em brasa, queimando aqueles que põe fogo nas matas e florestas.
  27. Boiúna: a boiuna, ou cobra-grande, é um mito amazônico de origem ameríndia, descrito como uma enorme cobra escura capaz de virar as embarcações. Também pode imitar as formas das embarcações, atraindo náufragos para o fundo do rio.
  28. Matinta Perera: trata-se de uma velha que a noite se transforma em um pássaro agourento que pousa sobre os muros e telhados das casas e se põe a assobiar e só para quando o morador, já muito enfurecido pelo estridente assobio, lhe promete algo para que pare (geralmente cigarro, mas também pode ser café, cachaça ou peixe).
  29. Rostro: Focinho de animais aquáticos.
  30. Urucumacuã: diz a lenda que o Príncipe Urucumacuã, chefe da nação Maia, fugindo dos espanhóis, mandou construir em determinada área na região do Vale do Guaporé, grandes depósitos para guardar os tesouros dos Maias, preciosidades constituídas de: ouro, pedras preciosas, prata, cobre e muitas joias cerimoniais. Nessa localidade, o Príncipe Urucumacuã, deixou vários guerreiros com suas famílias para guardarem o tesouro. Essa localidade ficou conhecida como Aldeia de Urucumacuã.
  31. Cunhantã: palavra de origem da língua tupi, e até hoje usada em frases de índios pelo Brasil e até fora do Brasil. E que significa: moça; menina; adolescente.
  32. Lago Jaci Uaruá: místico lago onde as lendárias Amazonas, em noites de Lua Cheia, mergulhavam para retirar um barro verde limoso, com o qual modelavam figuras aquáticas para servirem de amuleto, tais como: rãs, peixes, tartarugas. Os amuletos eram modelados rapidamente, pois, sob a luz da Lua, o barro endurecia em poucos instantes. Os amuletos são denominados “muiraquitãs”. (Vide nota nr.: 36).
  33. Uiára: Uiara (do tupi 'y-îara, "senhora das águas") ou Mãe-d'água, segundo o folclore brasileiro, é uma linda sereia que vive no rio Amazonas, seus afluentes e tributários, sua pele é parda, possui cabelos longos, verdes e olhos castanhos.
  34. Ipupiara: nome de origem tupi para descrever um animal conhecido como monstro das águas. Esse animal atacava e devorava pescadores desavisados.
  35. Abatí: ou abati (tupi/guarani) - milho, plantação de milho / abatiy — vinho de milho / auati, avati — gente loura, que tem cabelos louros (como o milho).
  36. Muiraquitã: pedra verde esculpida em forma de sapo usado pelas cunhantãs como amuleto, ou: artefato talhado em nefrita, com formas diversas, algumas vezes de batráquios, quelônios, serpentes, etc., que tem sido encontrado no baixo rio Amazonas, e ao qual se atribuem virtudes de amuleto; pedra-verde, pedra das amazonas.
  37. Curupira: é uma entidade das matas, um anão de cabelos compridos e vermelhos, cuja característica principal são os pés virados para trás.
  38. Jirau: Estrado de varas sobre forquilhas cravadas no chão, usado para guardar panelas, pratos, legumes, etc.; qualquer armação de madeira em forma de estrado ou palanque.
  39. Banzeiro: (locução amazônica) sucessão de ondas provocadas pela passagem da pororoca, de uma embarcação a vapor ou uma cobra grande, no rio.
  40. Curumim: criança do sexo masculino. Menino.
  41. Tritão(Triton) na mitologia grega, é um deus marinho, filho de Poseidon (Neptuno na mitologia romana) e Anfitrite (Salácia), geralmente representado com cabeça e tronco humanos e cauda de peixe e ou/serpente.
  42. Bodeco: Filhote de pirarucu.
  43. TauariFibra têxtil usada para confeccionar cigarros.

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